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- Escrito por: Ronaldo Correia Junior
Na penúltima segunda, Silvia recebeu uma avaliação do colégio sobre Clara. A alfabetização está um pouco mais rápida que a média e – o que temos dificuldade de perceber – tem muito talento pra artes. Fala de mim frequentemente, com muito carinho e parece estar transmitindo aos colegas a naturalidade com que vê (há pouco tempo nem via) minha deficiência - isso me deu alguma esperança de que não sofra bullying por essa causa ou que tenha capacidade de enfrentá-lo. É muito alegre e carinhosa, características que fizeram a professora que deu a avaliação falar que Clara faz jus ao seu nome - é uma luz. Foi bom saber que estamos a educando bem.
Dois dias depois, o colégio ia promover um evento com os pais em comemoração à Páscoa bem na hora em que a primeira filha de Silvia chega da sua escola e eu ir implicava não haver alguém em casa para recebe-la. A solução que encontrei foi pedir a um amigo da família que viesse para cá para faze-lo. Na noite anterior, Silvia dormiu mal, ficou com enxaqueca e perguntei várias vezes se queria ir sozinha, mas esta resolveu me levar mesmo. Ao nos ver lá, Clara ficou eufórica, logo subiu no meu colo e foi difícil querer sair dele para fazer as atividades. Nesse horário – em torno das 18h – tornou-se difícil eu ir a esses eventos e ainda não sei como resolver isso, mas minha presença é realmente muito importante para Clara.
Silvia notou a ironia de eu nunca ter ido a um colégio e agora estar o fazendo como pai.
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- Escrito por: Ronaldo Correia Junior
Na última quinta, no colégio de Clara botaram uma sombra com glitter nos seus olhos que causou uma alergia e, na manhã seguinte, ficaram inchados – ela já tinha sido maquiada inúmeras vezes e foi a primeira que teve problema. Pensamos que não era grave, a mandamos à escola mas, no fim da tarde, a coordenadora ligou para Silvia dizendo que Clara queria voltar para casa antes do horário normal porque estava com algum mal-estar. Após Silvia sair para buscar sua segunda filha, botei uma almofada no meu colo na qual fiz Clara se deitar e dormir – fico derretido quando isso acontece. Na hora em que Silvia chegou, pedi para coloca-la na cama para eu poder jantar e Clara insistiu em continuar no meu colo, embora logo depois tenha se despertado com o movimento da casa. Já de madrugada, Silvia foi ver como Clara estava, se assustou porque as pálpebras incharam tanto que o olho direito não se abria e a levou imediatamente a um hospital, enquanto que, numa reação desproporcional – era mesmo só uma alergia –, pelo nervosismo, preocupação, frustração por não poder acompanha-las, etc, senti um aperto tão forte no peito que temi infartar. No sábado, Silvia me contou que, lá, Clara chorava dizendo “eu quero meu pai, eu quero meu pai...”.
Um dos temas mais recorrentes deste blog era que Clara tinha se afastado muito de mim devido à minha descoordenação motora – na verdade, foram pouquíssimas as ocasiões em que a machuquei, graças ao cuidado que tomo. Dado meu estilo de escrever objetivo e conciso, talvez os posts sobre o assunto não deixassem transparecer a desolação, a profunda tristeza que esse problema me dava, a ponto de pensar que poderia ser permanente. Ainda há uma tensão – que agrava minha descoordenação – nos momentos em que trocamos carinho e que não existia com outras crianças com quem convivi ao longo da vida, talvez porque tive de lidar com ela desde que era recém-nascida, algo que foi meio apavorante para mim. De qualquer forma, em grande parte foi resolvido, seu vínculo comigo tornou-se bem forte.
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- Escrito por: Ronaldo Correia Junior
Decidi incluir nesse vídeo a filmagem na qual faço errado um exercício porque este blog tem como princípio mostrar não só meus êxitos, mas também meus insucessos, trapalhadas, minha falibilidade e, em última instância, a humanidade de quem tem paralisia cerebral.
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- Escrito por: Ronaldo Correia Junior
Antes de se casar comigo, Silvia queria adotar uma criança achando que assim diminuiria o sofrimento que há no mundo, o tornaria melhor, o que visivelmente é um elemento de seu Complexo de Mulher Maravilha. Às vezes penso que querer um homem com paralisia cerebral severa seja outro desses elementos. Não posso afirmar isso porque ela estava tão mal, nos anos anteriores ao nosso casamento, que após um tempo de estarmos juntos concluiu que teria um infarto, AVC ou algo parecido se não tivesse me encontrado e que salvei sua vida – como a iniciativa do nosso relacionamento foi toda dela, acho essa ideia sem nexo, mas não consigo muda-la. Assim, não sei se ter casado comigo é parte daquele complexo, mas sua atração por mim – que começou em 2000, quando estava bem – provavelmente é.
Meses atrás, assistimos um vídeo que distingue o herói cristão ocidental – que luta, sacrifica-se por uma causa maior – do greco-romano, o qual ver o mundo como meio caótico, sem muito sentido, cheio de coisas terríveis, mas consegue encará-lo, viver com isso, e nos identificamos com esse segundo tipo. De vez em quando alguém me considera o Super Homem, o que sempre rejeitei – e Silvia insiste que sou. De fato, sentir-se atraída por homens fisicamente frágeis – especialmente se a fragilidade for uma deficiência – e que tenham humor, sejam capazes de rir, brincar é como desejar o próprio. Afinal o companheiro mais adequado para a Mulher Maravilha é o Super Homem![]()
Mas, no fim das contas, Silvia desejava salvar um homem frágil e o mundo, ou procurava um Super Homem? Acho que ambas as coisas simultaneamente – essa dialética talvez valesse para outras mulheres que tive –, pois o ser humano é mesmo contraditório: outra característica do herói greco-romano é aspirar ser lembrado, notado, o que é um dos motivos para a existência deste blog mas, sempre que isso ocorre, fico querendo um buraco para me enfiar!
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- Escrito por: Ronaldo Correia Junior
Um dos assuntos mais recorrentes deste blog era Clara recusar que eu a acariciasse – pode-se acompanhar como e porquê tal problema surgiu, se desenvolveu e declinou. Nesta semana, ela me pediu para a acaricia-la com frequência e até insistência, apesar de todos arranhões, trombadas, patadas que dei involuntariamente nela, além de ter perdido uma mecha inteira de cabelo. Obviamente, foi necessário anos de esforço e atenção para controlar minha descoordenação motora ao lidar com ela. Estou feliz por ter tido sucesso.
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- Escrito por: Ronaldo Correia Junior
Nesta manhã, quando minha fisioterapeuta chegou Silvia tinha levado suas filhas e resolvi que Clara iria conosco para a sala de pilates, de modo a não ficar enfiada nos streamers. De brincadeira, aquela fez Clara dizer que sou o rei da casa só para, em seguida, esta me montar.
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- Escrito por: Ronaldo Correia Junior
Com o arrefecimento da pandemia no Brasil, meses atrás comecei a pensar em consultar um urologista por prevenção, mas vinha relutando em dar esse trabalho a Silvia e me expor ao risco de pegar COVID-19 até sentir uma dor momentânea no períneo e adjacências – provavelmente foi muscular, mas achei melhor checar a próstata. Meu plano de saúde deu uma guia e uma indicação médica para ir a um hospital conveniado, mas eu não sabia que tinha de levar esta segunda, não pude fazer a consulta e precisei pedir a extensão da validade da guia. Quis marcar a nova consulta pelo WhatsApp, não vi que tinha que dar a confirmação final e, ao voltarmos lá na semana passada, soubemos que nada havia marcado – só fiz trapalhadas nessa história. Silvia teve de conduzir minha cadeira de rodas de ré – para as pequenas rodas dianteiras não engancharem nas lajes da calçada – por uns 80 difíceis metros, além de subir uma rampa bem íngreme, para irmos a outro prédio do hospital, cujo atendente conseguiu me encaixar nos horários de um urologista, que chamou outro – que ela já conhecia e confia mais – para fazer o exame de toque e até hoje tenho que aguentar as piadas dela a esse respeito. Foi detectada uma dilatação na minha próstata, que lembrei que há anos é mostrada em ecografias, mas esqueci que a primeira destas foi em 2014 – devia ter me lembrado desse detalhe, pois foi um episódio que poderia ter me impedido de casar e ser pai. Hoje solicitei os outros exames e espero não fazer mais besteira alguma.
Sempre vetei animal de estimação aqui em casa, por saber que seria mais um trabalho para Silvia. No meio do ano, uma vizinha teve de se mudar às pressas para outro estado e pediu que Silvia ficasse com sua gata preta, embora com a proposta de repassa-la para outra pessoa, o que já me irritou imediatamente. Um mês depois, todos da família tivemos uma doença respiratória, com o consequente é-não-é COVID – não era e, como todos usamos máscara ao sair, a causa devia estar em casa, na gata. Nossa empregada chegou a arranjar alguém para ficar com a gata mas, na hora H, Silvia e sua segunda filha a retiveram e, então, eu disse que daria um sumiço no bicho se mais um membro da família adoecesse – não faria crueldade alguma, só a empurraria para outra pessoa. Na semana passada tive uma asma estranha, já que nenhum dos fatores habituais – doença respiratória, fumaça e poeira – esteve presente e o motivo foi a gata ou a falta da natação. Concedi o benefício da dúvida à gata, resolvi fazer natação por um mês – mais que isso é inviável para Silvia – e já na primeira sessão percebi que a fisioterapia não pode substituí-la. Após uma noite em que dormimos mal devido à gata, a própria Silvia quis se livrar do bicho, mas não teve coragem para tanto, me perguntou se teria e, pela minha expressão facial, viu que sim. Pelo bem da gata, espero que a natação funcione.
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