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- Escrito por: Ronaldo Correia Junior
Nesse artigo, Fabiano Puhlmann diz que as pessoas com paralisia cerebral “frequentemente são superdotados na inteligência”. Desconsiderando os casos em que a lesão afeta as partes do cérebro responsáveis pela cognição, não há motivo para supor que a distribuição de Q. I. ou qualquer outra medida de inteligência – todas sujeitas a controvérsias – entre tais pessoas difira do resto da população. Assim, dizer que há uma maior incidência de superdotados entre elas decorre da surpresa de sua “normalidade” nesse aspecto quando se espera que todas, ou na grande maioria, tenham déficit cognitivo. É um resquício de preconceito muito comum – estou cansado de ouvir que sou superdotado ou gênio (não sou) e usei o artigo de Puhlmann apenas como um exemplo que estava disponível.
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O que mais me incomoda nesse artigo de Fabiano Puhlmann sobre sexualidade na paralisia cerebral é chamar a prostituição de "sexualidade marginal". Todos os psicólogos que falam sobre sexualidade procuram ter uma atitude neutra, evitando condenar qualquer prática disseminada, deixando cada pessoa livre para fazer suas escolhas conforme seus desejos e valores. Em contraste, num grupo do Facebook vi a também psicóloga Carolina Câmara, que tem paralisia cerebral, notar a falta de garotos de programa especializados em atender mulheres com deficiência física.
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Não fazia fisioterapia desde a adolescência, quando a detestava ou no mínimo achava enfadonha. Há muito tempo, tinha consciência que nunca devia ter parado, mas o problema do deslocamento, entre outros, me impedia de voltar a fazer, até que soube que meu plano de saúde cobria o atendimento domiciliar. A empresa que fornece o serviço só contrata recém-formados – quase sempre do sexo feminino – que, em média, só passam um ano nessa área por causa do trânsito ruim e da baixa remuneração, o que compromete a qualidade do serviço, embora também me faça conviver com mulheres jovens e bonitas. Apesar da neuroplasticidade, pela minha idade só esperava impedir a deterioração do meu estado físico, mas há um mês vi um claro sinal que a fisioterapia está me trazendo melhoras – pela primeira vez na vida, consegui matar uma barata!!!
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- Escrito por: Ronaldo Correia Junior
Sempre que vou a um médico, para agilizar a consulta digito um bilhete descrevendo os sintomas que apresento, o qual implicitamente mostra que não tenho déficit cognitivo. Há quase três meses, fiz uma consulta apenas preventiva com um urologista, à qual não levei tal bilhete porque nada estava sentindo. Os exames que fiz previamente mostraram um aumento da próstata, sem me fazer qualquer pergunta sobre se eu estava com dificuldade para urinar – ao contrário do que os urologistas costumam fazer – ele foi logo abrindo os exames e receitando um remédio para “prevenir” esse tipo de dificuldade, sem dar um piu sobre os efeitos colaterais. Quando li a bula, soube que o remédio pode causar perda de desejo e impotência, embora temporariamente, e não vi nexo algum em correr esse risco por causa de problemas que não tenho.
Assustado, levando um bilhete fui a um segundo urologista, que me disse que 80% ou mais dos homens com aumento da próstata não desenvolvem dificuldade para urinar, que 50% dos que tomam têm os referidos efeitos colaterais e que não receitaria esse remédio só por prevenção – no fim da consulta, impressionado com a clareza do bilhete esse urologista disse que ganhou o dia. A hipótese mais condescendente que consigo imaginar para o primeiro tê-lo receitado é imaginar que não tenho vida sexual e, portanto, impotência e perda de desejo não me afetariam. Quase que a imagem das pessoas com paralisia cerebral como assexuadas vira uma profecia auto realizada!
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- Escrito por: Ronaldo Correia Junior
Foi a quarta tentativa de dar esse salto. Na primeira já estava voando quando o controle de tráfego aéreo informou que a documentação do avião estava irregular e tivemos que pousar – foi inacreditável! Ao marcar o salto em pleno inverno, não acreditava que a chuva o permitiria – foi um tiro na Lua! De última hora o carro do meu irmão deu defeito e tive de gastar um dinheirão para ir e voltar de táxi, mas valeu a pena. No primeiro salto, o medo fez fechar os olhos na queda livre e, quando o paraquedas abriu, bati com a cabeça na boca do instrutor; dessa vez, fiquei de olhos bem abertos durante a queda livre, estava tão consciente nesta que me preocupei que estivesse demorando demais e o instrutor elogiou meu comportamento no salto.
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Já que não posso falar, além de usar gestos, expressões faciais e uns poucos sons que consigo pronunciar, é assim que me comunico:
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Às vezes há modos simples e diretos de ver o preconceito e/ou a desinformação sobre quem tem paralisia cerebral: num bar, quando o garçom serve a cerveja, se ele enche meu copo ou não, ou se alguém se espanta que eu bebo – e já aconteceu duas vezes de pessoas da mesa vizinha quererem chamar a polícia ou agredir quem estava comigo, só porque estava me dando bebida.
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Há alguns anos atrás, uma psicóloga com paralisia cerebral chamou várias pessoas, inclusive eu, para formar um grupo de discussão só de adultos com PC, perguntei a essas pessoas quem poderia participar e, por unanimidade, se excluiu os pais. Aí perguntei quanto aos irmãos, fui voto vencido e estes também foram excluídos. O grupo não foi para frente, mas fiquei impressionado com o desconforto de adultos com PC quanto aos familiares, em especial os pais, devido à infantilização, superproteção e outros motivos. Em 2012, duas outras psicólogas com paralisia cerebral criaram um grupo assim no Facebook.
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- Escrito por: Ronaldo Correia Junior
Quando se tem expectativas muito ruins quanto a uma pessoa, basta ela agir de acordo com padrões medianos, ”normais”, para ser vista como alguém extraordinário. Essa visão é produto do preconceito tanto quanto ver essa pessoa como inferior. Sempre me incomodo com rótulos de herói, super-homem, supermulher, lição de vida, prova da existência de Deus – como sou ateu, esta me faz pensar coisas como “que imbecilidade!” – porque são uma forma invertida de preconceito, não a supressão dele. Uma forma dessa atitude particularmente irritante para mim é alguém dizer que sou um superdotado ou gênio, pois significa que achava
