Minha mãe tinha mania de contar a todo o mundo a história do meu nascimento e primeiros anos de vida. Portanto, a ouvi literalmente milhares de vezes e fiquei com certa aversão a isso. Um dos capítulos dessa história é que, ao entrar na primeira clínica de reabilitação, fiz um teste de inteligência, no qual tive uma pontuação muito alta, a psicóloga que o aplicou não acreditou no resultado, disse que um menino que não explorava o mundo ao redor com o tato e a locomoção não podia ser tão inteligente e fez outro teste próprio para crianças maiores, com um resultado semelhante. Como tinha (ou tenho) aversão àquela história, na infância queria apenas ser uma criança “normal”, não me julgava mais inteligente do que a média e, por fim, compreendi que ressaltar minha inteligência era um mecanismo da minha mãe para se compensar por ter um filho com paralisia cerebral, passei a encarar tal capítulo como mitológico, um exagero. Só voltei a encará-lo como algo real na década de 1990, quando tive de fazer uma psicoterapia e, logo no início desta, a profissional que me atendia repetiu praticamente as mesmas palavras daquela primeira psicóloga.
Só fui alfabetizado porque a segunda clínica de reabilitação que frequentei tinha um setor de pedagogia, depois a pedagoga que o fez foi a todos os colégios de Recife e nenhum me aceitou – formalmente sou um analfabeto! Nas redes sociais sigo vários pesquisadores, professores e outros com perfil semelhante, geralmente acho meus comentários nos seus posts um tanto triviais ou até bestas e, no entanto, quase sempre são curtidos por eles. Do mesmo modo, nos últimos anos venho fazendo cursos à distância e, nos grupos associados, os participantes - alguns com mestrado ou doutorado – dizem que levanto questões interessantes, dou boas ideias, trago conhecimentos que não tinham, etc. Como nunca frequentei sequer um colégio, essas situações às vezes me parecem surreais. Intelectualmente, talvez eu não seja tão mediano quanto pensei.
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