Treinando para pegar a Filha

Criado: Terça, 02 Fevereiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Minha fisioterapeuta e Silvia inventaram de me fazer treinar para pegar nossa filha, usando uma boneca:

Acho uma ideia de jerico e não pretendo pega-la antes dos três meses, enquanto Sílvia quer que isso aconteça no primeiro dia.

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Mal-estar

Criado: Domingo, 31 Janeiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Neste sábado, perto da meia noite Silvia sentiu-se mal e fiquei com a cabeça girando, imaginando como e a quem pedir ajuda se seu estado se agravasse, em especial se ela desmaiasse. Após ela compartilhar o último post no Facebook, várias amigas e primas dela ofereceram ajuda, mas não sei se alguma estaria com o celular ligado naquela hora. Provavelmente ela ligaria para alguém antes de piorar muito, mas, se fosse eu que pedisse ajuda e estivesse sem óculos, teria dificuldade para digitar mensagens. Se ela fosse a um hospital sem conseguir falar com ninguém e suas filhas acordassem, conversaria com estas usando o Livox e, de manhã, enviaria uma mensagem ao seu ex-marido pedindo que viesse busca-las, apesar de ele não querer contato algum comigo. Só não saberia como atender o interfone se alguém chegasse à portaria para nos ajudar, caso ela não pudesse faze-lo.

Silvia só deve ter tido cólicas e cansaço e melhorou em 90 minutos. No dia seguinte, tive a ideia de avisar a portaria que deixe passar qualquer pessoa que diga que estamos numa emergência, embora isso tenha seus próprios riscos. E a pessoa que banha minhas enteadas e eu falou que deixa o celular ligado durante a noite. Mesmo assim, é uma situação muito vulnerável.

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Precauções contra Emergências

Criado: Sexta, 29 Janeiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Minha filha deve nascer no fim de junho de parto cesariano, o que implica um período de recuperação de 30 a 40 dias para Silvia. Suas duas filhas entram de férias em seguida e é incerto em que medida seu ex-marido poderá efetivamente compartilhar a guarda destas, por ter uma saúde precária e às vezes correr risco de vida. Sua família mora em Brasília e ficou só de pagar uma enfermeira para ajuda-la nos primeiros dias da recém-nascida. Meu irmão tinha prometido vir para Curitiba no meio do ano, mas recentemente voltou a trabalhar e, até uma semana atrás, me parecia duvidoso que pudesse vir de fato. A única pessoa com quem aparentemente poderíamos contar seria minha irmã mais velha, que ficou de passar uma semana aqui na época do parto.

Nessas condições, no último sábado conversamos sobre a possibilidade de haver uma emergência, como o rompimento da bolsa d’água. Não soubemos quem cuidaria de suas filhas e de mim, a levaria ao hospital e se haveria alguém para ficar lá com Silvia. Se apelássemos a um amigo, ele poderia demorar para chegar e se chamássemos um taxi, este ficaria na portaria e ela teria de andar uns 50 metros, subindo e descendo escadas e/ou rampas. Seria uma situação muito perigosa para Silvia e nossa filha, chegamos a pensar que eu poderia ter de voltar para Recife – o que só resolveria parte dos problemas –, ela começou a chorar pois quer que eu esteja presente inclusive na sala de parto até que falei “não vou (para Recife)”, embora estivesse ciente de que tal negação talvez não passasse de uma bravata.

Felizmente meu irmão disse que poderá passar um mês em Curitiba, minha irmã estará aqui na ocasião do parto e uma amiga minha virá antes desta, de modo que, nas semanas anteriores ao parto, haverá sempre alguém aqui a postos para o caso de surgir uma emergência; Silvia já deixou uma amiga de sobreaviso para essa eventualidade; e na última consulta com seu ginecologista, eu quis definir logo uma data para o parto, para irmos nos planejando.

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Acessibilidade nos Centros de Curitiba e Recife

Criado: Quarta, 27 Janeiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Pedi a Silvia para conhecer o cento de Curitiba no último sábado. Fiquei muito surpreso por ser possível andar de cadeira de rodas pelas ruas dele sem problemas, em contraste com a falta de acessibilidade da grande maioria das ruas do de Recife. Mas a grande maioria das lojas e restaurantes da região não tem rampa de acesso. E repeti a demência de subir um degrau alto de um restaurante na cadeira, esquecendo que podia me levantar, subir com minhas próprias pernas e depois Silvia subir a cadeira com bem menos esforço – que imbecilidade!

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O que ela viu nesse cara?

Criado: Quarta, 27 Janeiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Muita gente deve se perguntar o que uma mulher linda, cheia de dons e com uma profissão prestigiada e bem remunerada como Silvia viu num homem com uma paralisia cerebral severa, sem emprego e com renda baixa. O tipo de homem que a atrai é o que tem uma grande força de espírito, ressaltada pela combinação de fragilidade física com muito bom humor. Ela adora ter alguém para cuidar, embora quisesse um homem que também cuidasse dela, a ajudasse no cotidiano, o que venho conseguindo fazer mais do que esperávamos. E tem fascínio por homens que se expressam e/ou escrevam bem e de modo incisivo, fator que desencadeou sua atração por mim.

Uma das coisas que soube na Internet que mais me causou estranheza é que há pessoas que têm atração por homens ou mulheres com deficiência. Como há atração por praticamente todas as características humanas, depois me perguntei por que não pela deficiência. É possível que Silvia tenha tal tipo de atração, pois muitas situações geradas pela minha PC que a grande maioria das pessoas, inclusive eu, veria como transtornos a fazem rir, divertir-se, brincar, além de ter muito prazer comigo na cama. Considerar isso não saudável é se aferrar a uma noção de “normalidade” que leva a desconhecer e/ou rejeitar o que pode trazer felicidade a pessoas comuns e equilibradas, como Silvia, apenas por terem desejos diferentes das outras.

Este texto não é uma lista exaustiva dos motivos de Silvia me amar, pois esta questão é bem mais complexa do que um punhado de características e, se continuasse escrevendo a respeito, seria difícil evitar ser pedante.

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Discriminação na Polícia Federal

Criado: Segunda, 11 Janeiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Parte importante do projeto de vida que Silvia e eu temos é viajar ao exterior, embora haja sido adiada indefinidamente pelo filho que teremos. Como já havíamos agendado e pago a emissão dos nossos passaportes antes da gravidez, hoje fomos à Polícia Federal para tirarmos as impressões digitais e fotos necessárias. Para nossa total surpresa, a PF negou a emissão do meu com a exigência da declaração de um juiz de que sou apto para os atos da vida civil! Silvia é advogada e, até então, só tinha visto a exigência da comprovação da incapacidade para tais atos. Fui à Europa em 1998 e, na época, não houve qualquer exigência desse tipo – a PF retrocedeu no trato com pessoas com deficiência! Não sei qual foi o fundamento jurídico desse retrocesso, mas agora tal exigência viola os artigos 84, 85 e 86 da Lei 13.146, o Estatuto da Pessoa com Deficiência. Vou entrar com um processo administrativo na PF esperando não só obter meu passaporte, mas também fazer essa instituição mudar tal conduta com as pessoas com deficiência.

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Generalização Indevida

Criado: Domingo, 10 Janeiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Só recentemente este blog passou a receber comentários [os anteriores a agosto de 2017 foram perdidos num ataque hacker] e aprendi direito o procedimento para libera-los. Nessa ocasião vi um comentário de uma mulher, datado de 08/03/2015, me pedindo para fazer sexo oral nela porque fantasiava em transar com um homem cujo desempenho sexual se reduzisse à ponta da língua, me confundindo com um paraplégico. O comentário foi feito antes de eu começar a escrever sobre meu atual relacionamento, mas o post comentado não tinha indicação alguma de que eu atendia aos requisitos de sua fantasia. Tive vontade de dar uma resposta desaforada e mesmo de xinga-la, mas nada disse porque já havia se passado mais de oito meses – mas se respondesse, teria me limitado a indicar a página sobre sexualidade do meu site, cujo objetivo é combater a generalização dos problemas da lesão medular para a paralisia cerebral.

Tal generalização indevida é um aspecto obscuro do imaginário social brasileiro que só deve ser conhecido por quem tem PC – não sei se as pessoas com outras deficiências físicas diferentes da lesão medular também a sofrem nem se ocorre em outros países. Quando começam a nos perguntar se temos dificuldade de ereção, sensibilidade na região genital e coisas semelhantes, ficamos atônitos, sem entender nada, porque as questões relativas à sexualidade que enfrentamos são muito diferentes. Depois que compreendemos que estão nos confundindo com tetra e paraplégicos, passamos a nos incomodar, irritar e até enraivecer com essa generalização.

Apesar do termo “paralitico” – que abrangia lesão medular, paralisia cerebral e poliomielite – praticamente haver caído em desuso, acho que continua a fazer parte do imaginário social brasileiro e, como as pessoas com lesão medular são a grande maioria das abrangidas por essa categoria antiga, as especificidades das outras são ignoradas. Além disso, ”paralisia cerebral” é uma expressão enganosa por dar a impressão de imobilidade, uma característica da lesão medular, não da PC, cujo principal traço é a descoordenação motora e, em muitos casos, existe até um excesso de movimentos; há alguns anos, os médicos a renomearam como “encefalopatia crônica não-progressiva”, mas esta segunda expressão não será difundida entre os leigos. Não sei em que medida essas minhas considerações explicam realmente tal generalização, que dificilmente atrairá a atenção de um antropólogo ou psicólogo social.

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Um Ano de Relacionamento

Criado: Quinta, 07 Janeiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Era para ter acontecido no Natal de 2014, mas me assustei com os possíveis problemas, riscos e confusões do que estava me metendo, parei para refletir, fiquei distante, o que a fez me enviar um e-mail frio, pensei que ela havia desistido de mim e passei a trata-la com igual frieza – demorou doze dias para esse mal entendido ser resolvido. O que me fez prosseguir foi perceber que ela estava profundamente infeliz e, de algum modo, eu a fazia bem, se alegrar. Hoje faz um ano que nosso relacionamento começou. Agradeço à vida por ter me dado uma mulher linda, maravilhosa e encantadora como Silvia Regina.

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Conselho a uma Mãe

Criado: Terça, 05 Janeiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Fui citado numa discussão de um grupo do Facebook, iniciada por uma mãe aflita e perdida porque a filha de 20 anos com paralisia cerebral tem falado em namorar, casar, ter uma companhia, e que está se entristecendo com as dificuldades para tanto. Minha resposta (editada) a essa mãe foi a seguinte:

“Me parece que a primeira coisa que você tem de fazer é ver que sua filha não é mais uma menina, e sim uma mulher adulta, com sexualidade, desejos, etc. Se ela conseguirá ter relacionamentos vai depender de múltiplos fatores e só o tempo dirá. Mas como adulta, ela tem de aprender a lidar com as tristezas, frustrações, etc, desse processo e, se você tentar poupá-la disso, vai piorar situação dela. No caso improvável de ter sucesso (provisório), ela se tornará uma pessoa incapaz de viver e possivelmente sofrerá mais. Um psicólogo pode ajudar. Minha história é bem peculiar, dificilmente pode ser generalizada e, se quiser conhecê-la, vá meu blog – também recomendo o texto sobre sexualidade do meu site.”

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No Papel de Marido

Criado: Quinta, 31 Dezembro 2015 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Era uma grande incógnita como eu seria como marido, já que minha vida amorosa foi muito fragmentária, muito mais virtual do que pessoal. Me ressentia não só de inexperiência, mas também de ter uma experiência muito especifica que não me ajudaria na convivência concreta com uma mulher. Penso que estou me saindo muito melhor do que eu mesmo esperava e minha esposa está bem satisfeita – ou pelo menos ela me faz mais elogios do que queixas. Acho que aprendi com a experiência e os erros dos outros e me ajudou muito ter bem mais amizade com mulheres que com homens.

Por mais que quisesse ter um relacionamento completamente não-virtual com uma mulher, parece que acreditava muito pouco que isso viesse a acontecer, pois, quando ocorreu, demorou meses para “cair a ficha”: me soou estranho ouvir a chefe dela nos tratar como marido e esposa na recepção de um bar e uma montadora de móveis sair do nosso apartamento dizendo “tchau, seu Ronaldo”, um tratamento que passei a vida vendo ser dispensado a meu pai – demorei um segundo para perceber que esta falava comigo, já que não estava acostumado a ser autoridade numa família. Era uma “normalidade” estranha, surreal para mim.

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