Distanciamento da Filha

Criado: Quarta, 18 Outubro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Às vezes, me emociono só observando Clara fazer as coisas mais triviais, mas sua ligação comigo nunca foi forte porque não posso a alimentar, banhar, vestir e, pelo perigo de machucá-la, fazer muitas carícias e brincadeiras. Após Clara passar a ficar oito horas no berçário, tal ligação se enfraqueceu muito – ela praticamente deixou de me acariciar, falar “papai”, etc –, pois quase não há mais tempo para ficarmos juntos. De fato, recentemente Clara passou uma semana com amidalite, tive de ficar bastante tempo cuidando dela, inclusive para Silvia manter um ritmo mínimo de trabalho e não correr risco de ter uma estafa – eu é que tive um mal-estar depois de três noites quase sem dormir –, e várias vezes ela espontaneamente veio para meu colo, mas depois que curou-se voltou a não querer saber muito de mim. Fico triste com esta situação e o que me anima é lembrar que, quando vim morar em Curitiba, as filhas de Silvia tinham 4 e 6 anos e bastou dar carinho para estas gostarem demais de mim – espero que o distanciamento de Clara se reverta do mesmo modo.

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Um Filme Indiano

Criado: Domingo, 15 Outubro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Silvia adora o cinema indiano, o segundo do mundo em faturamento e o maior em número de filmes, e tiro muita onda de algumas características dele, como geralmente ter uma parte musical – fico dançando de modo afetado. Ontem, eu mesmo quis assistir “Margarita com Canudinho”, cuja protagonista é uma mulher com paralisia cerebral. Um dos elogios de Silvia – para mim duvidoso – a tal cinema é a ausência de cenas de sexo e este filme foi a primeira exceção que conhecemos, abordando a sexualidade de pessoas com PC e a homossexualidade feminina, dois temas difíceis, o que me fez brincar que fiquei “chocado” ao vê-los num indiano – numa época em que o obscurantismo avança no Brasil e em grandes partes do mundo, foi esperançoso ver que há países que podem estar na direção oposta.

Este filme reforçou a hipótese de Um Padrão no Primeiro Amor?: nos apaixonamos pela primeira pessoa que nos trata como seres humanos – isso acontece na Irlanda, México, Índia, Brasil, etc –, embora nem sempre seja o primeiro sentimento do tipo, já que parece ser frequente acontecer com um(a) colega de alguma instituição – clínica de reabilitação, faculdade, etc – que também tenha PC. Ao assistir a filmes com personagens com PC, na parte que aborda nossas dificuldades em ter relacionamentos amorosos – são realistas nesse aspecto, mostrando que a maioria não os consegue – tinha vontade de chorar, mas neste disse para mim mesmo “esta batalha tu venceste”. A mãe da protagonista morre, o que me fez ter refluxo porque é algo que ainda terei de viver, uma perspectiva que me angustia há décadas, e foi difícil demais deixar de cuidar da minha para me casar com Silvia.

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Cadeira de Rodas

Criado: Domingo, 08 Outubro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Das limitações físicas que tenho, a que menos era aceita por minha mãe era não andar e precisar me locomover em casa engatinhando, me ”arrastando pelo chão como um animal” na sua expressão. Ela fez de tudo para eliminar tal limitações e chegou muito mais perto de consegui-lo do que se pode inferir dos meus atuais vídeos: diariamente, ela me levava para treinar andar no pátio do prédio onde morávamos em Recife e cheguei a puder andar uns 20m solto, sem ajuda, até que levei uma queda em que bati a cabeça no chão, tive convulsão (não relacionada à PC) e ela parou esse treinamento. Depois foi decidido – não lembro por quem nem em quanto tempo – comprar uma cadeira de rodas para mim e minha mãe ficou desolada, pois significava que seu maior desejo para o filho nunca seria realizado. Mas quase não usava as cadeiras que tive em Recife, pela escassa acessibilidade da cidade – que, embora lentamente, vem aumentando –, e acabavam enferrujando e se estragando, exceto a última. Ainda assim, aquela primeira cadeira me permitiu brincar o carnaval de 1988, uma das melhores e mais loucas experiências da minha vida.

A cadeira de rodas realmente passou a fazer parte do meu cotidiano só após vir morar em Curitiba e, então, voltei a ter o prazer de andar pelas ruas – o melhor modo de se conhecer uma cidade – com relativa liberdade e sem fazer um esforço extremamente cansativo para mim e quem anda comigo – a deambulação de alguém com PC consume energia demais, inclusive por forçar muito o sistema cardiorrespiratório. Quando vem nos visitar e me fotografa com Silvia e/ou Clara, minha melhor amiga sempre me fala para editar as fotos de forma a cortar a cadeira porque acha feio, mas sempre as publico com esta com certo orgulho pois, além de não ver problema estético algum, penso que não é muito incomum se ter uma esposa e uma filha lindas, exceto quando se tem uma deficiência e a cadeira de rodas simboliza isso.

Repetindo um truísmo entre as pessoas com deficiência mais reflexivas, a cadeira de rodas nos é algo positivo, não é uma prisão e sim um instrumento de liberdade.

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Pioneiro em Paraquedismo

Criado: Sábado, 07 Outubro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Não soube quem seria o instrutor do meu terceiro salto de paraquedas até chegar ao aeródromo de Igarassu e me deparar com o do primeiro, que foi em João Pessoa, o que reduziu a tensão inerente a tal esporte, pois ele já me conhecia e fez um curso para saltar com pessoas com deficiência. Já sabia que o cinegrafista do primeiro tinha se emocionado com meu salto a ponto de chorar e esse instrutor disse que, ao ver aquilo, não conseguiu conter as próprias lágrimas, porque fui a primeira pessoa com algum tipo de paralisia a saltar na região. Não tive presença para perguntar qual era o âmbito geográfico dessa afirmação, mas sei que um homem com PC o fez em Salvador em torno do início do século. Assim, para o Nordeste acima da Bahia posso ter sido a primeira pessoa com PC a saltar.

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Cantadas Femininas?

Criado: Quarta, 04 Outubro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Era de se esperar que pudesse ter ciúmes de Silvia – e tive umas poucas vezes –, mas é o inverso que ocorre. Para mim, seu ciúme é desconcertante, de difícil compreensão, às vezes até sem nexo e foi um problema sério no início do nosso relacionamento – hoje, é um motivo de riso.

No último sábado, fomos ao show dos Paralamas do Sucesso e, ao acabar de me aprontar, Silvia brincou que estava vestido como um gay. Após o fim do show, resolvemos tentar tirar fotos com a banda – depois desistimos disso porque estava demorando demais –, no trajeto para o camarim uma mulher me disse algo como “gostou do show, né? Dê um beijo nele (em Herbert Vianna)”, como só prestei atenção à segunda frase pensei “devo mesmo estar parecendo um gay” ou que esta imaginou que tenho déficit cognitivo, mas Silvia cismou que a figura estivesse se insinuando para mim, pela forma com que falou. Mesmo no dia seguinte achei que Silvia estava brincando de novo, mas falava a sério, teimei que não era uma insinuação até que atinei que estávamos num evento em que, por Herbert ter uma paraplegia, dificilmente alguém pensaria que um cadeirante tem tal déficit e o modo de se vestir tem pouca relação com a orientação sexual – ainda assim, reluto em crer que a figura estivesse “de olho” em mim.

Esse episódio me lembrou que, no início do nosso primeiro encontro, fomos a um bar dançante, pedi que meu irmão – um homem bonito – me levasse para urinar, ao atravessarmos a pista de dança uma mulher disse “que gato!”, nem levantei a cabeça para saber quem falou supondo que era com ele que, no banheiro, insistiu que foi comigo. Talvez o ciúme de Silvia não seja tão infundado quanto imagino.

Contradição de um ser humano: sou seguro o suficiente para ter pouco ciúme das mulheres com quem me relaciono, mesmo que sejam lindas e interessantes, mas tenho uma enorme dificuldade de acreditar que posso atrair o interesse de outras quando saio.

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Um Possível Erro

Criado: Segunda, 02 Outubro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Em Resquício de Preconceito, critiquei que muita gente diga que pessoas com paralisia cerebral têm mais inteligência que a média. Na semana passada, troquei e-mails com um neurocientista canadense que viu meu site e este blog e ele disse que há uma correlação entre QI superior à média e PC com atetóide (movimentos involuntários) – tenho ambos, ao menos segundo os testes de inteligência que fiz no início da infância. Não dá para ter certeza que minha crítica estava errada, pois quem faz aquela afirmação nunca específica o tipo de PC a que se refere.

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Corpo

Criado: Sexta, 29 Setembro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Sempre soube que tenho um rosto bonito, apesar de uma enorme dificuldade de crer no que via no espelho. Porém, além de muito magro – detesto magreza –, meu corpo é cheio de assimetrias e deformações, o que me faz dar como certo que nenhuma mulher gostaria dele, embora não fosse totalmente desprovido de vaidade quanto a ele, pois ficava contente quando a musculatura de alguma parte se desenvolvia em decorrência de uma atividade física. Silvia é esteticamente exigente demais consigo mesma e, nos momentos em que isso vem à tona, às vezes pergunto o que acha do meu corpo, na esperança de atenuar tal exigência, portanto supondo que ele não a agrade. Silvia sempre responde que gosta dele e o compara ao de Mick Jager, o que me deixa cético, procurando qualquer sinal de que tal resposta seja para levantar minha autoestima, dada por educação ou algo parecido. Será que ela gosta mesmo do meu corpo? Para mim, essa hipótese é estranha, quase inconcebível.

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Luva

Criado: Sexta, 29 Setembro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Noutro post, descrevi os problemas que embalar Clara causa à minha mão esquerda. Após voltarmos de Recife o aumento de seu peso agravou esses problemas, com as feridas e assadura na mão causando dores quase insuportáveis quando a embalava e, exceto nos momentos em que nossa diarista está, não tem outra pessoa que a faça dormir. A solução óbvia era usar luva. Silvia me emprestou uma de ginástica, que não resolveu porque não protegia a articulação mais externa dos dedos, onde exerço maior força e se fere mais – ao contrário, tal luva aumentou a pressão nesse local. A luva que serviu foi uma que comprei no último inverno e quase não tinha usado.

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Dores de Embalar

Criado: Terça, 15 Agosto 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Para Clara, tenho uma importância bem menor que a de Silvia, o que é natural pois não a alimento, banho, visto, as carícias que posso fazer são limitadas pelo risco de machucá-la. etc. O único momento em que Clara às vezes quer mesmo a minha presença, até chorando, é o do sono. Faço questão de botá-la para dormir por essa causa, para ajudar Silvia e porque, nas noites em que a diarista o faz, parece ser mais frequente Clara acordar depois.

Esse trabalho tem alguns efeitos penosos. À época em que balançava seu primeiro berço com as pernas, distendi os músculos da virilha, que continuaram doendo três ou quatro meses após parar de fazê-lo. Embalá-la no carrinho me dá dores musculares nas pernas – dependendo da posição na qual fico – e nos dedos da mão esquerda, os quais há muito criaram calos que às vezes se abrem, tornando-se pequenas feridas. Uma dessas dores foi tão persistente que pensei que era uma lesão por esforço repetitivo. Numa noite em que uma confusão fez Clara demorar muito a dormir, minha mão ficou assada como consequência do suor causado pelo9 estresse e tive de continuar a embalar para não agravar a situação.

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Déficit Cognitivo, Atitudes Duvidosas

Criado: Sábado, 23 Setembro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Possivelmente a maior questão existencial para quem tem paralisia cerebral e sua família é se há ou não déficit cognitivo – ou “deficiência intelectual”, na terminologia padrão – ou, caso negativo, como demonstrar que não existe. A suposição que tal déficit exista muitas vezes chega a níveis inacreditáveis. A psicóloga com quem fiz terapia trabalhou para uma escola inclusiva que tinha um aluno de dez anos com PC cuja mãe também era psicóloga e fazia trabalho voluntário para pessoas com deficiência, devido à experiência comigo ela se sentou na mesa dele e conseguiu se comunicar com o menino, mostrando que sua cognição não foi afetada, o que gerou uma forte comoção na mãe e no pessoal do colégio. Tive uma namorada virtual que estudava Psicologia que fazia um estágio numa clínica de reabilitação, a qual tinha um paciente com PC de 17 anos que ainda usava fraldas, pois sua família pensava que não aprenderia a controlar os esfíncteres, o que essa namorada ensinou em pouco tempo após perceber que o intelecto deste era normal.

Atribuir um déficit cognitivo imaginário pode ser um modo de denegrir a imagem de alguém com PC ou que tenha um filho com essa deficiência. Já vi duas amigas que trabalhavam em reabilitação terem tal atitude, no primeiro caso quanto a um rapaz que frequentou uma instituição da área, no segundo em relação à filha de uma pessoa de quem não gostava. Creio que não eram mentiras intencionais dessas amigas, e sim distorções na sua percepção causadas pela animosidade com essas pessoas.

Tenho dois amigos muito esclarecidos cujos filhos com PC têm déficit cognitivo, mas que parecem não falar disso de modo algum. Conheço pessoalmente o filho de um deles e o que me chamou a atenção foi a omissão desse aspecto da deficiência, mas só consegui concluir pela existência do déficit no filho do outro amigo analisando seu discurso.

O tipo de situação descrito no primeiro parágrafo é bem comum. Não sei com que frequência ocorrem as atitudes mencionadas no resto deste post.

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Terceiro Salto de Paraquedas

Criado: Terça, 19 Setembro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Fomos a Fortaleza no fim de 2016, principalmente para minha família conhecer Clara. Já que Curitiba não tem paraquedismo, quis aproveitar para dar outro salto de paraquedas lá. Quando começamos a namorar, Silvia pensava em fazer o curso de paraquedismo, mas desistiu após o nascimento de Clara e queria que eu também parasse por causa desta, o que gerou discussões tensas em dezembro. Essa matéria da BBC mostra que o risco desse esporte é o mesmo que andar 400km de carro e provavelmente o estudo citado deve ter se baseado em médias mundiais – caso usasse estatísticas de trânsito brasileiras, tal quilometragem seria bem menor; se também forem considerados nossos índices de criminalidade, no cotidiano corremos riscos tão grandes ou maiores que num salto. Silvia teve “boca de praga” e, duas semanas antes de irmos a Fortaleza, o piloto do avião do salto sumiu – teve de ir resolver um problema pessoal no Rio Grande do Sul.

No início deste mês, fomos a Recife para batizar Clara e resolvi tentar de novo saltar. Na véspera do salto, tive uma diarreia feia – outra praga de Silvia?wink – da qual só me curei ao sair para o aeródromo, acompanhado por um casal de amigos. Foi um dia muito nebuloso, desde que saí de casa olhava para o céu, via as nuvens e achava que não conseguiria saltar. Esperamos seis horas para as nuvens abrirem e porque havia outras pessoas na minha frente – uma destas sofreu uma tentativa de assalto com uma faca colocada no seu pescoço horas antes, o que exemplifica o que digitei acima sobre riscos. O cinegrafista ficou impressionado com minha calma durante a ascensão do avião, ignorando que o pior momento para mim é o de sair deste – nessa hora pensei “ai, meu Deus, para que fui inventar isso?!”. No fim, acabei vencendo todos os obstáculos e tendo mais uma experiência emocionante e intensa.

E para horror de Silvia, quero que Clara salte de paraquedas!

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Entendido pela Filha

Criado: Domingo, 03 Setembro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Horas atrás, enquanto estava sendo embalada por mim no carrinho Clara se sentou duas vezes, falei para se deitar emitindo um grunhido incompreensível, ela entendeu e me obedeceu. Foi a primeira vez que ela compreendeu o que falo.

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Pai com Instinto Materno?

Criado: Quarta, 30 Agosto 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Na noite desta terça, Clara acordou chorando descontroladamente e nada do que fazíamos a acalmava. Eu já estava pensando que Silvia devia leva-la ao hospital quando notei que parava de chorar ao tomar água e voltava no momento em que a mamadeira era retirada, o que me levou a achar que poderia ser fome, apesar de ter se alimentado antes de ir para o berço, e dizer para Silvia preparar uma de leite. Após toma-lo, Clara foi tranquilamente para o carrinho e dormiu embalada por mim. Hoje de manhã, ao contar isso para a empregada, Silvia disse “Ronaldo tem instinto maternal, é um pai com intuição de mãe”. Prefiro dizer que homens também podem ser intuitivos.

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A Ideologia da Superação

Criado: Quarta, 16 Agosto 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Uma grande rede de TV está querendo convencer seu público que, para alcançar seus objetivos, basta alguém se esforçar o suficiente independente do contexto social, econômica, político, etc, e qualquer problema neste acabará se todos fizerem individualmente o mesmo. Cortei nossa TV por assinatura, venho sendo obrigado a ver um pouco a aberta e me parece que pessoas com deficiência e, sobretudo, para-atletas têm um papel de destaque nesse esforço ideológico. Independente da mídia, muitas dessas pessoas, seus familiares e amigos adotam essa, digamos, ideologia da superação – p. ex., minha melhor amiga queria que o tom do blog fosse este. Alguns, ao contrário, criam aversão a tal ideologia, pertenço a esse segundo grupo e de vez em quando a critico aqui – outro exemplo dessa aversão é essa palestra de Rafael Bonfim. Evito o máximo digitar nesse tom, falando dos problemas, dificuldades e fracassos que contínuo a ter, para transmitir que sou um ser humano em vez de um super-herói e, assim, não colocar um peso extra nos leitores do blog que tenham deficiência.

Fui tão bem na equoterapia que a equipe do CEEQ – o vídeo abaixo mostra a emoção de sua diretora com meu progresso inicial – cogitou me mandar para a paraolímpica de hipismo. Nunca tiveram tempo de tentar fazê-lo, mas a ideia não foi adiante também porque não gostei. À época, fazia natação e fisioterapia, nos dias em que a équo se combinava com uma dessas atividades chegava em casa exausto e, até me acostumar com esse ritmo, muitas vezes quase tinha um mal-estar. Não compartilho dos ideais olímpicos, não gosto do hipismo como esporte nem queria passar anos de treinamento enfrentando aquela exaustão diariamente, exceto no caso improvável do patrocínio ser muito bom.

Muita gente acha extraordinário que eu salte de paraquedas, mas comecei a fazer isso justamente ao constatar que tinha todas as condições para tanto, não havia grande obstáculo algum para superar, era questão só de dinheiro e alguém que me levasse. Há muito tempo, pessoas com deficiência saltam e é fácil encontrar vídeos delas no YouTube.

Como já disse noutro post, se a minha condição socioeconômica fosse inferior à de classe média possivelmente já teria morrido. Mesmo se tivesse escapado, só por milagre desenvolveria as características que me tornaram atraente para algumas mulheres, incluindo Silvia.

Acho que nunca pensei em me superar, o que sempre quis foi só ter uma vida melhor, frequentemente sem acreditar que conseguiria e, na medida em que aconteceu, jamais foi exclusivamente por meu esforço individual. Este é imprescindível, mas há inúmeros problemas econômicos, sociais, culturais, etc, que dificultam a vida de quem tem deficiência e acabam escondidos pela ideologia da superação, jogando inteiramente a culpa pelo insucesso em pessoas isoladas. O blog acabou sendo uma modesta tentativa de influenciar num desses problemas – o que a sociedade pensa a nosso respeito –, cujo alcance é pequeno.

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Visita de Funcionária de Saúde

Criado: Sexta, 11 Agosto 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Ontem, uma funcionária do posto de saúde no qual Clara costumava ser vacinada veio aqui em casa para verificar se o calendário de vacinas desta estava sendo cumprido – Silvia a tem vacinado noutros lugares. Silvia aproveitou para perguntar como posso tomar a vacina contra pneumonia lá, trocou as bolas falando que sou o marido de Clara e depois se corrigiu. Quando eu desci da cadeira em que uso o computador e fui engatinhando tomar água, aquela perguntou o meu nível de instrução, sem saber direito o que responder Silvia disse que é primeiro grau incompleto – na verdade, formalmente sequer cursei a alfabetização – e pensei “pronto, agora ela vai pensar que sou um analfabeto funcional”, alguém muito pouco inteligente. A funcionária chamou a paralisia cerebral de doença, o que me deu vontade de dizer “quem tem doença é a mãe”. Creio que aquela saiu daqui achando que Silvia seja louca e/ou tarada – quando comentei isso, ela brincou que aquela pode estar certa. Talvez tenhamos dado um nó na cabeça da funcionária!

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Difícil Fim de Mês

Criado: Quarta, 09 Agosto 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Clara começou a andar em julho, o que foi uma alegria para nós – fiquei emocionado quando caminhou na minha direção pela primeira vez. Antes, às vezes eu conseguia cuidar desta até por três horas, o que ficou bem mais difícil, pois passou a querer andar segurando na mão de alguém – agora está dispensando esse auxílio –, que tinha de caminhar encurvado, forçando as costas. No fim do mês, teve uma infecção de garganta e ouvido que demorou a ser diagnosticada corretamente, dormiu mal várias noites e obviamente nós também. Tal situação deixou Silvia muito mais cansada.

Tenho insônia, dependo de um ansiolítico para dormir, na última quinta do mês precisei de uma dose extra, quando comecei a sentir sono Silvia, contrariando meu conselho, foi cobrir Clara e a acordou. Embalei esta várias vezes, quase caí de sono em alguns momentos, mas sempre não ficava no berço. Silvia resolveu tentar botá-la para dormir, aproveitei para ir ao banheiro e o pouco barulho que fiz a despertou. Aí Silvia me deu uma bronca e a sorte foi eu não poder falar, senão teria quebrado o pau com ela. Clara acabou dormindo no carrinho após ser embalada de novo por mim e eu, ao lado, no sofá até de manhã.

>No último domingo de julho, ficamos sozinhos com as três meninas e, pelos fatores citados no parágrafo, Silvia quase teve um esgotamento. O estresse resultante me fez ter um início de sensação de desmaio em alguns momentos. Concluímos que a situação tinha de mudar. Decidimos que Clara passaria oito horas no berçário em vez de quatro. Também comecei a pagar uma diarista para nos ajudar aos domingos. E agora que consegue andar sozinha, parece que Clara vai demandar menos de Silvia.

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Lembrando da Minha Mãe

Criado: Quinta, 27 Julho 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Silvia tem uma grande, talvez excessiva preocupação com a saúde das pessoas que ama e o frio, atitude que me lembra minha mãe – será que Freud explica? Na noite da última terça-feira, apesar da babá eletrônica mostrar que fazia 25ºC no quarto de Clara, ela viu que a perna desta estava descoberta, quis ir lá cobrir, insisti que não fosse – até por saber que ia sobrar para mim se Clara acordasse –, mas foi mesmo assim e a despertou. Desde o fim da amamentação, raramente Silvia consegue adormecer Clara, o que faço quase sempre. Nessa noite, talvez por ansiedade minha para dormir sem esperar que seu sono se consolidasse ou Clara estar tossindo e com dentes nascendo, por três vezes a fiz dormir no carrinho, chamei Silvia para botá-la no berço e esta acordava de novo. Em torno da 1h Silvia começou a se desesperar, desisti de voltar para cama, a mandei dormir – se um de nós tiver de ficar sem sono, é melhor ser eu porque a carga de Silvia é muito maior do que a minha –, a embalei mais uma vez e cochilei uns 40 minutos no sofá, até ela se levantar e conseguir que Clara ficasse no berço de vez. No resto do dia, fiquei pensando nas noites em claro que minha mãe passou cuidando de mim, principalmente em crises de asma – jamais imaginei que, com todas as limitações que tenho, enfrentaria situações parecidas com minha própria filha!

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Ecocardiograma Hilário

Criado: Quinta, 20 Julho 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Ontem, fiz um ecocardiograma de rotina acompanhado por Silvia. Fui atendido 45 minutos após o horário marcado, o que nos preocupou de voltar para casa a tempo de aprontar Clara para ir ao berçário. Quando fui chamado, a enfermeira passou a fazer uma série de perguntas idiotas visivelmente na suposição de que tenho deficiência cognitiva – todas foram dirigidas a Silvia sem dar uma palavra comigo. Resolvi encerrar aquelas perguntas e poupar nosso tempo dizendo com a prancha de comunicação “sou o marido dela(de Silvia)” – num instante, a enfermeira fez uma expressão de embaraço, calou-se, foi fazer seu trabalho e comecei a rir. Durante o exame, esta só falava comigo usando diminutivos, como se eu fosse uma criança, e fiquei contendo o riso para não cair na gargalhada. Às vezes, acho hilários os estereótipos e preconceitos sobre quem tem paralisia cerebral.

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Pesadelos e Preconceito Insidioso

Criado: Quarta, 19 Julho 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Em Recife, raramente tinha pesadelos, que demoraram anos para acontecer, e aqui em Curitiba se tornaram frequentes. O motivo é a sensação de insegurança gerada pela mudança para cá: lá tinha uma vida relativamente estável, numa cidade conhecida, amparada pela minha família, com amigos e, desde 2010, bem satisfatória; aqui tive de começar tudo do zero, só agora estou começando amizades, longe dos familiares, contando só com Silvia, uma mulher maravilhosa e muito forte, mas de carne e osso, tem quatro dependentes e pode eventualmente sofrer um esgotamento. Racionalmente, sei que tal comparação é em parte ilusória e, pouco antes de vir para cá, percebi que aquela vida em Recife não duraria muito, sobretudo pela deterioração da minha estrutura familiar – o que de fato ocorreu.

Na madrugada do último domingo, Silvia foi ao banheiro, demorou muito para voltar e, nesse ínterim, pensei que pudesse estar se sentindo mal. Nada houve de errado com ela, mas foi o suficiente para eu demorar a dormir de novo e ter dois pesadelos: no primeiro, Silvia morria num acidente de transito, fui chamado para reconhecer o corpo e o jornalista Luís Nassif – cujo blog leio diariamente – entrevistava um perito, que dizia que o acidente foi causado por excesso de cansaço e que talvez ela estivesse viva se eu tivesse ficado em Recife; no segundo, Silvia tinha um escritório de advocacia perto de um campo de treinamento do Exército – do qual meu pai foi oficial, carreira que talvez eu seguisse se não tivesse deficiência – e uma bomba gigantesca explodia, danificando seriamente seu escritório. Para mim, esses dois pesadelos significam que ainda luto para não me sentir um estorvo para Silvia, embora tenha plena consciência da felicidade que dou a ela. Também exemplificam o aspecto mais insidioso de um preconceito – no caso, o de que alguém com deficiência não pode fazer bem, feliz um homem ou mulher –, que é ser introjetado pelas pessoas contra as quais é direcionado.

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Falando com a Filha II

Criado: Sexta, 14 Julho 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

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