Intuição Paterna

Criado: Segunda, 18 Junho 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

A cama na qual Silvia e eu dormimos é muito alta, se um bebê cair dela vai se machucar gravemente e Silvia diz reiteradamente para suas filhas não botarem Clara em cima. Ontem depois do almoço, embora assistindo um jogo de vôlei masculino fiquei atento a Clara, percebi que as três foram ao nosso quarto e que suas irmãs falavam num tom abaixo do normal que, intuí, era de quem sabia estar fazendo algo errado e, não sei porquê, suspeitei que estavam colocando Clara na cama. Engatinhei até lá, vi que minha suspeita era fundada, reclamei, sua irmã mais nova insistiu que não a deixaria cair, Silvia foi atrás de mim e afastamos o perigo.

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Fazendo Questão pelo Pai

Criado: Terça, 12 Junho 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Pela primeira vez, Clara está fazendo questão pela minha presença fora do horário de dormir. Às vezes ela me chama e, quando já estou ao seu lado, reclama, chora se eu tentar ir fazer outra coisa. Além de ser uma alegria para mim, isso tem reduzido bastante a carga de Silvia.

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Montado pela Filha

Criado: Segunda, 11 Junho 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

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Humanização

Criado: Sábado, 09 Junho 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

O tom triste do último post teve o propósito de quebrar o triunfalismo excessivo que, senti, estava dando ao blog e que contraria o que acabou sendo o meu principal objetivo de mantê-lo – humanizar as pessoas com paralisia cerebral. Afinal todo mundo enfrenta revezes no cotidiano.

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Pequeno Acidente Doméstico

Criado: Quinta, 07 Junho 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Hoje de manhã, sentei no chão ao lado de Clara para vermos vídeos do Youtube, ela se levantou, pegou minhas mãos para dançar comigo, fiquei numa posição instável, virei para trás e a derrubei – nada sofri, enquanto ela bateu a cabeça na porta corrediça de um móvel sem maiores consequências. Clara foi chorando até a escola e Silvia acha que foi porque me viu cair, não por ter batido a cabeça. Como às vezes digo neste blog, sempre há o risco da descoordenação motora me levar a machucá-la, embora esta, creio, tenha sido só a quarta vez que isso aconteceu. O que era algo emocionante acabou mal e me chateei muito.

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Não dou Trabalho?

Criado: Segunda, 04 Junho 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Ouço a estranha frase “você (ou ele) não dá trabalho” dos meus familiares há não sei quanto tempo, talvez desde que tinha 25 ou 30 anos. Tomada literalmente, é infundada porque me alimentar, banhar, vestir, etc, implica em trabalho. Até recentemente, imaginava que trazia implícita uma comparação com as crianças, que frequentemente fazem birra. Há décadas, meus irmãos e eu nos preocupamos com como fariam para cuidar de mim e da minha irmã que tem deficiência quando nossos pais não estivessem mais vivos, questão que vem voltando à tona, para animá-los venho dizendo que o problema está resolvido no que me refere, ao que meu irmão respondeu que cuidar de mim tem aspectos prazerosos e divertidos – creio que Silvia diria o mesmo, inclusive porque sua expectativa inicial era que eu fosse um chato no cotidiano. De fato, faço o máximo para facilitar a vida do cuidador do momento, sou paciente, bem-humorado, tolerante, sem hábitos muito rígidos, etc – essas e outras características beneficiam minha convivência com os outros. Mas dou trabalho, sim.

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Senso de Tempo

Criado: Quinta, 24 Maio 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Clara não voltou mais a me abraçar espontaneamente após a última sexta-feira, o que reforça a hipótese de que soube que era meu aniversário e indica que já possui um senso de tempo que os bebês não têm. Meses antes, sua madrinha tinha dito que ela é superdotada, achei um exagero, e agora insistiu na ideia, ainda sem me convencer. Será que Clara vai ser física e estudar a natureza do tempo?wink

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Aniversário

Criado: Sexta, 18 Maio 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Hoje é meu aniversário e o de casamento dos meus pais, que se casaram um ano antes do meu nascimento. Fico triste por não estar em Recife e sobretudo pela situação difícil em que estão, além dos possíveis desdobramentos – nesta semana, até tive de intervir pelo WhatsApp para resolver um problema específico, a pedido do meu irmão. Porém, acho que se sentem recompensados quanto a mim, pois superei todas suas expectativas.

De manhã, do nada Clara me deu um abraço – o melhor que poderia receber hoje –, depois me acariciou e fiquei pensando se percebeu que é meu aniversário. Ela deve ter uma ideia do que é aniversário pela experiência da escola e daqui de casa e talvez ouvido Silvia falar do meu, mas bebês não têm senso de tempo e, naquele momento, ela ainda não havia visto alguém, inclusive a mãe, me parabenizar.  Se Clara teve tal percepção, não sei como foi.

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Reaproximação

Criado: Domingo, 13 Maio 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Como disse noutro post, o uso do tablet estava fazendo Clara se reaproximar de mim. Essa reaproximação se consumou e já não é totalmente dependente do tablet – tem acontecido de Clara ficar muito tempo comigo sem ligar tal dispositivo. Estou feliz com isso.

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Sensibilidade

Criado: Sexta, 11 Maio 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Amanhã, íamos passar uma semana em Recife, viagem que foi marcada em março e que tivemos de cancelar porque quase todos adoecemos, inclusive Silvia, e por vários problemas com meus pais e irmãos. Fiquei bem triste.

Ao ser colocada no berço para dormir, em geral Clara passa um bom tempo balbuciando, rolando, brincando de dar os pés para eu acariciar, etc. No entanto, na noite do dia do cancelamento ela foi logo se aquietando para dormir, três ou quatro vezes achei que ela tinha caído no sono, mas quando tentava sair do quarto a ouvia falar "papai, papai, papai..." e tinha de voltar. Só consegui que Clara dormisse quando vi que estava percebendo minha angústia e tratei de me acalmar.

Como não imaginava que uma bebê de um ano e dez meses pudesse ser tão sensível ao estado emocional do pai, narrei o episódio no grupo do WhatsApp sobre Clara. Sua madrinha – uma fonoaudióloga que é uma das minhas melhores amigas e já trabalhou e estudou muito sobre bebês – ressaltou a sensibilidade não de Clara, mas a minha, dizendo que muitos pais não percebem que suas emoções afetam seus bebês.

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Recordações num Parque

Criado: Sexta, 04 Maio 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Fomos ao Parque Barigui no último sábado e ficamos ao lado do restaurante no qual me despedi do meu irmão, quando ele veio nos ajudar no início da vida de Clara, o que me trouxe à memória o estado de espírito com que eu estava na ocasião; o pânico não expresso por estar numa condição – a paternidade – que sempre quis evitar a todo custo, a suposição de que nada poderia fazer para cuidar dela, o medo de Silvia ter uma estafa, de que nosso casamento fosse inviável e eu ter de voltar para Recife, etc. Tudo aquilo foi somatizado na boca cheia de aftas, zumbido nos ouvidos, rigidez muscular tão alta que às vezes quase impedia de me mover. Mas aquele estado de espírito também incluía não ser homem de fugir da raia – a exemplo do meu pai –, a determinação de não abandonar a mulher que amo e a minha filha, de fazer o (supostamente) pouco que podia e ficar alerta para as possibilidades de ampliar minha participação, que se tornou bem maior do que eu podia imaginar – mas é óbvio que vencemos o desafio muito mais pela força e a capacidade de Silvia.

Hoje, acho que haver tido Clara foi a melhor coisa da minha vida e não sei traduzir em palavras o contraste entre esta situação de felicidade e aquele estado de espírito.

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Preocupação da Filha

Criado: Quinta, 26 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Devo estar com faringite e, ontem à noite, fui com Silvia a um hospital. Pelo que esta e a nossa diarista falaram, parece que Clara percebeu que estou doente e, quando voltamos,  em vez de se grudar com Silvia, como sempre faz, ela ficou comigo como se estivesse preocupada.

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Autoridade de Pai

Criado: Terça, 24 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

“Não” é uma das poucas palavras que falo de modo inteligível e, ontem, Clara demonstrou que já entende quando a digo: à noite, ela quis escalar a cadeira de alimentação, ao ouvir meu “não” choramingou, mas recuou; duas horas depois, no berço pegou duas vezes o fio da babá eletrônica, ao escutar o que falei Clara o largou e se deitou sem reclamar.

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Exemplo do Pai

Criado: Sexta, 20 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Clara é a única da sua turma do berçário que, quando a mãe vai busca-la, guarda o que está usando antes de sair, assim como às vezes faz em casa. Como esta e as irmãs são bem bagunceiras, Clara só pode estar seguindo o exemplo do pai, o único que ela vê guardando as coisas. Duvido que esse comportamento perdure com tantos exemplos em contrário, mas mostra que ela presta muita atenção em mim.

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Tocando com a Filha

Criado: Quarta, 18 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Com a chegada do outono, começaram as doenças respiratórias e Clara passou dois dias sem poder ir ao berçário devido a uma gripe. Ontem à noite, Silvia precisou trabalhar, trancou-se no quarto, quando fechou a porta comecei a bater num tambor de brinquedo, Clara pegou um pandeiro para fazer o mesmo e ficou um bom tempo cantarolando – a única palavra inteligível que falava era “papai”. Foi hilário e emocionante. Depois, passamos uns 30 minutos assistindo vídeos no Youtube nos quais ela voltou a se sentar espontaneamente no meu colo.

Parece que Clara está se reaproximando de mim e a chave para isso é ficarmos sozinhos.

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Ouvindo Músicas com a Filha

Criado: Quarta, 18 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Das minhas tentativas de fazer Clara voltar a ficar perto de mim, a primeira que deu certo foi tocar músicas infantis no Spotify, mas ela logo passou para os vídeos destas no Youtube. Quando ouve o som das músicas no meu tablet, ela vem se sentar ao meu lado, na varanda.

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Estilo Paradoxal

Criado: Sábado, 14 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

O último post me fez receber, num grupo do WhatsApp, um elogio à clareza dos meus textos. De fato, gostar de clareza faz com que esta seja uma característica intencional do modo de me expressar e foi um dos motivos para o nome de Clara. Porém, logo achei o elogio engraçado porque o tema daquele post era uma ambivalência minha – me incomodo por ser visto como um super-homem, mas às vezes me sinto como tal. Outro traço do meu estilo de escrever é mostrar ambiguidades e ambivalências sem dar uma solução a elas – quando ensaio resolve-las, me sinto como se estivesse apenas confabulando. Em suma, muitas vezes discorro claramente sobre assuntos nebulosos, o que soa um tanto paradoxal.

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Super-Homem

Criado: Sábado, 07 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

É comum se ver as pessoas com deficiência que conseguem algum sucesso na vida como super-homens ou super-mulheres, o que me incomoda e critico muito neste blog. Porém, por mais que rejeite tal visão às vezes cedo a esta e me sinto assim. Percebi que, quando vejo alguém idolatrando Silvia, a botando num pedestal, chamando-a de Mulher Maravilha (porque criei o conceito de “complexo de Mulher Maravilha”) e deixando subentendido que devo fazer o mesmo, uma voz interior responde “eu não, se ela é a Mulher Maravilha eu sou o Super-Homem”. Ao comentar, rindo, isso com Silvia, ela falou “e não é mesmo?” e acabei desconcertado.

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Trabalho Ocasional

Criado: Quarta, 28 Março 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Desde que a declaração de imposto de renda passou a ser eletrônica faço a do meu pai – inicialmente, ele me passou o conhecimento de como fazia em papel, mas depois comecei a conhecer mais o assunto do que ele –, o que não mudou quando meus irmãos e eu demos um laptop a ele ou com minha mudança para Curitiba. Há três anos, comecei a fazer também as de uma irmã e da (agora ex)namorada do meu irmão. Passei a cobrar desta pelo serviço no último ano, pois na ocasião estava muito ocupado com Clara e outras tarefas da casa, e agora minha ex-cunhada me indicou para sua mãe. O que ganho com isso é pouco, mas é melhor que nada e um modo de trabalhar.

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Pai pouco Importante

Criado: Segunda, 19 Março 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Na época do nascimento de Clara, às vezes Silvia e minha melhor amiga conversavam como se fosse certo que ela seria muito ligada a mim. Eu achava aquilo sem nexo: o principal motivo daquela suposição provavelmente era que é bem raro um homem com paralisia cerebral severa ter uma filha, mas uma bebê ou até uma criança maior não pode compreender o significado disso – e, convenhamos, alguns adultos devem considerar absurda tal história; o que uma bebê entende é quem mais a alimenta, cuida dela, a acaricia, etc. Assim, após o segundo trimestre de 2016 – quando pouco foi ao berçário devido a doenças respiratórias -Clara tem se afastado de mim a ponto de chamar outros homens de “papai”, raramente estou conseguindo mantê-la perto de mim, geralmente é refratária às minhas tentativas de acariciá-la, etc. Não vislumbro muitas possibilidades de mudar esta situação, que vem me entristecendo.

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