Autoridade de Pai

Criado: Terça, 24 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

“Não” é uma das poucas palavras que falo de modo inteligível e, ontem, Clara demonstrou que já entende quando a digo: à noite, ela quis escalar a cadeira de alimentação, ao ouvir meu “não” choramingou, mas recuou; duas horas depois, no berço pegou duas vezes o fio da babá eletrônica, ao escutar o que falei Clara o largou e se deitou sem reclamar.

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Exemplo do Pai

Criado: Sexta, 20 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Clara é a única da sua turma do berçário que, quando a mãe vai busca-la, guarda o que está usando antes de sair, assim como às vezes faz em casa. Como esta e as irmãs são bem bagunceiras, Clara só pode estar seguindo o exemplo do pai, o único que ela vê guardando as coisas. Duvido que esse comportamento perdure com tantos exemplos em contrário, mas mostra que ela presta muita atenção em mim.

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Tocando com a Filha

Criado: Quarta, 18 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Com a chegada do outono, começaram as doenças respiratórias e Clara passou dois dias sem poder ir ao berçário devido a uma gripe. Ontem à noite, Silvia precisou trabalhar, trancou-se no quarto, quando fechou a porta comecei a bater num tambor de brinquedo, Clara pegou um pandeiro para fazer o mesmo e ficou um bom tempo cantarolando – a única palavra inteligível que falava era “papai”. Foi hilário e emocionante. Depois, passamos uns 30 minutos assistindo vídeos no Youtube nos quais ela voltou a se sentar espontaneamente no meu colo.

Parece que Clara está se reaproximando de mim e a chave para isso é ficarmos sozinhos.

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Ouvindo Músicas com a Filha

Criado: Quarta, 18 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Das minhas tentativas de fazer Clara voltar a ficar perto de mim, a primeira que deu certo foi tocar músicas infantis no Spotify, mas ela logo passou para os vídeos destas no Youtube. Quando ouve o som das músicas no meu tablet, ela vem se sentar ao meu lado, na varanda.

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Estilo Paradoxal

Criado: Sábado, 14 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

O último post me fez receber, num grupo do WhatsApp, um elogio à clareza dos meus textos. De fato, gostar de clareza faz com que esta seja uma característica intencional do modo de me expressar e foi um dos motivos para o nome de Clara. Porém, logo achei o elogio engraçado porque o tema daquele post era uma ambivalência minha – me incomodo por ser visto como um super-homem, mas às vezes me sinto como tal. Outro traço do meu estilo de escrever é mostrar ambiguidades e ambivalências sem dar uma solução a elas – quando ensaio resolve-las, me sinto como se estivesse apenas confabulando. Em suma, muitas vezes discorro claramente sobre assuntos nebulosos, o que soa um tanto paradoxal.

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Super-Homem

Criado: Sábado, 07 Abril 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

É comum se ver as pessoas com deficiência que conseguem algum sucesso na vida como super-homens ou super-mulheres, o que me incomoda e critico muito neste blog. Porém, por mais que rejeite tal visão às vezes cedo a esta e me sinto assim. Percebi que, quando vejo alguém idolatrando Silvia, a botando num pedestal, chamando-a de Mulher Maravilha (porque criei o conceito de “complexo de Mulher Maravilha”) e deixando subentendido que devo fazer o mesmo, uma voz interior responde “eu não, se ela é a Mulher Maravilha eu sou o Super-Homem”. Ao comentar, rindo, isso com Silvia, ela falou “e não é mesmo?” e acabei desconcertado.

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Trabalho Ocasional

Criado: Quarta, 28 Março 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Desde que a declaração de imposto de renda passou a ser eletrônica faço a do meu pai – inicialmente, ele me passou o conhecimento de como fazia em papel, mas depois comecei a conhecer mais o assunto do que ele –, o que não mudou quando meus irmãos e eu demos um laptop a ele ou com minha mudança para Curitiba. Há três anos, comecei a fazer também as de uma irmã e da (agora ex)namorada do meu irmão. Passei a cobrar desta pelo serviço no último ano, pois na ocasião estava muito ocupado com Clara e outras tarefas da casa, e agora minha ex-cunhada me indicou para sua mãe. O que ganho com isso é pouco, mas é melhor que nada e um modo de trabalhar.

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Pai pouco Importante

Criado: Segunda, 19 Março 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Na época do nascimento de Clara, às vezes Silvia e minha melhor amiga conversavam como se fosse certo que ela seria muito ligada a mim. Eu achava aquilo sem nexo: o principal motivo daquela suposição provavelmente era que é bem raro um homem com paralisia cerebral severa ter uma filha, mas uma bebê ou até uma criança maior não pode compreender o significado disso – e, convenhamos, alguns adultos devem considerar absurda tal história; o que uma bebê entende é quem mais a alimenta, cuida dela, a acaricia, etc. Assim, após o segundo trimestre de 2016 – quando pouco foi ao berçário devido a doenças respiratórias -Clara tem se afastado de mim a ponto de chamar outros homens de “papai”, raramente estou conseguindo mantê-la perto de mim, geralmente é refratária às minhas tentativas de acariciá-la, etc. Não vislumbro muitas possibilidades de mudar esta situação, que vem me entristecendo.

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Continuando a botar a Filha para Dormir

Criado: Sábado, 03 Março 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Há algumas semanas, diante das minhas crescentes dificuldades para embalar Clara no carrinho, quando ela estava em casa no horário do seu sono da tarde Silvia a levava para seu quarto, o escurecia e fechava, silenciava o apartamento – o que não é trivial se suas filhas estiverem aqui – e ficava lá até aquela dormir. Sabendo que ficar sem botá-la para dormir me entristeceria muito, hoje Silvia me chamou ao quarto de Clara e consegui fazê-la adormecer.

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Como a Filha será?

Criado: Sexta, 02 Março 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Uma das minhas fisioterapeutas me perguntou se acho que Clara será estudiosa e encolhi os ombros num gesto de “não sei”. Duas semanas antes, uma prima minha perguntou se ela será aventureira como eu e respondi “só Deus sabe” – tal resposta foi metafórica, já que sou ateu (ao menos no sentido de não crer num Deus pessoal). Esse tipo de pergunta tende a me desconcertar, pois não nutro muitas expectativas sobre como Clara vai ser. Obviamente, Silvia e eu temos alguns desejos a respeito e tentamos direcioná-la de acordo, mas são poucos e sou cético quanto à nossa capacidade de determinar seu modo de ser.

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Criança Feliiz

Criado: Sábado, 24 Fevereiro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

A professora de Clara disse que ela é a mais alegre da turma e a que mais curte as atividades da escola. É bom saber que estamos criando uma criança feliz

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Deixar de Embalar a Filha

Criado: Segunda, 19 Fevereiro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Na tarde da segunda-feira de carnaval, Silvia pensou em irmos a um shopping center e eu, em testar uma coleira infantil em Clara, tanto porque esta já não quer ficar muito no meu colo quando me locomovo na cadeira de rodas quanto para andar e ter sono à noite. Acabamos indo a outro lugar e, à noite, Clara demorou uma hora e meia para dormir, embora não dá para ter certeza que foi pela falta de movimento. Ter a embalado durante esse tempo me causou distensões nas costas e virilha, o que me fez perceber que há semanas venho ficando com dores musculares sempre que a embalo por mais de 20 minutos e que está chegando o momento de parar de fazê-lo, pelo peso de Clara (no mínimo 12kg). Para mim, é uma decisão difícil independente das dificuldades da transição, pois é na hora de dormir que Clara mais faz questão da minha presença. Talvez esta continue adormecendo comigo de algum outro modo, já que às vezes vem se aconchegar em mim quando sente sono e não a colocam no carrinho.

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Pegando no Pé

Criado: Sexta, 09 Fevereiro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Às vezes, figurativa e literalmente Clara pega no meu pé para tocar música no tablet.

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Mão de Homem

Criado: Segunda, 05 Fevereiro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

De tanto embalar Clara, pela primeira vez na vida tenho uma “mão (esquerda) de homem”, cuja palma é encaliçada e tem pele grossa.

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Músicas para a Filha

Criado: Segunda, 05 Fevereiro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Quando as filhas de Silvia ficam com o pai, em geral Clara gruda nela, dificultando muito fazer as tarefas domésticas. Um dos meus poucos recursos para entreter Clara e facilitar o trabalho de Silvia é tocar músicas infantis no meu tablet, embora muitas vezes isso não funcione.

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Após a Queda

Criado: Quarta, 31 Janeiro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Após a queda que dei de cadeira de rodas, Clara não gosta mais de me ver deitado no chão e sempre fica querendo me levantar, às vezes com algum nervosismo.

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Qual Segurança?

Criado: Segunda, 29 Janeiro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Cedo ou tarde, todas as minhas amigas e namoradas acabavam dizendo que sentiam-se seguras comigo apesar da minha fragilidade física, um mistério que nunca consegui desvendar. Mais compreensível é que transmita segurança a Clara na ausência de sua mãe, afinal cuido dela, a protejo, sou seu pai. Porém, logo no primeiro dia em que notei que Clara veio para meu colo para se sentir segura me perguntei qual seria a segurança que poderia dar a ela se Silvia viesse faltar de vez, por algum acidente ou mal súbito, com todas minhas limitações físicas, baixa renda, pais que já estão com mais de 80 anos e que ainda precisam cuidar da minha irmã que tem deficiência física e cognitiva, etc. Fiquei apavorado e, desde então, sempre que começo o mesmo raciocínio procuro me acalmar pensando que Silvia é forte, tem ótima saúde e que tal situação é improvável.

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Imitando o Pai

Criado: Quinta, 18 Janeiro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Há três dias, Clara pegou minha prancha de comunicação, veio para perto de mim e começou a mexer nesta com os pés. Não sei se sua intenção era conversar comigo, mas no mínimo estava me imitando.

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Uma Queda

Criado: Sábado, 13 Janeiro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

No último domingo, após estacionar o carro na garagem Silvia resolveu que Clara iria andando até o elevador em vez de comigo na cadeira de rodas. Quando a porta se abriu, por um momento Silvia ficou indecisa entre evitar Clara de entrar no elevador e puxar a cadeira, achei que podia conduzir esta com os pés para subir um aclive que existe no local, mas, ao invés disso, esta virou para trás. A estrutura da cadeira protegeu minhas costas e tive o reflexo de enrijecer o pescoço para a cabeça não bater no chão, de modo que nada sofri. Mas ao me ver caído no chão, Clara entrou em desespero, apontando as mãos alternativamente para Silvia e para mim pedindo que a mãe me acudisse logo. Dois dias depois, me deitei no chão e Clara ficou um pouco aflita querendo me levantar. Diante da ligação de Clara com Silvia, tendo a pensar que tenho pouca importância para ela, mas essa queda mostrou que tal suposição está errada.

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Consciência das Limitações do Pai

Criado: Domingo, 31 Dezembro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Clara parece estar começando a ter consciência das minhas limitações e necessidades: ontem à tarde íamos sair, Silvia trocou minha roupa, saiu do quarto e Clara me deu a mão para andar comigo, gesto que repetiu na sala; e hoje, ela trouxe minha prancha de comunicação para perto de mim e ficou a apontando com o pé, como se quisesse conversar comigo.

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