Posts antigos

Cérebro Pensante

Brincando com a Filha

Comentar

Beleza

Em geral, a paralisia cerebral causa deformações ósseas e distorce as expressões faciais, tornando muito difícil a quem a tem se encaixar em algum critério de beleza. Ainda assim, algumas pessoas com PC preservam sua beleza senão no corpo, ao menos no rosto, mas o preconceito de que isso é impossível é tão forte que acabam o introjetando a ponto de não crerem no que veem no espelho. Ao longo da minha vida, às vezes alguém me achava bonito e eu nunca acreditava; quando recebia uma sugestão para melhorar minha aparência, em geral dava de ombros pensando algo como “besteira, sou feio mesmo e nada que possa fazer vai mudar isso”– na prática, tomava uns poucos cuidados com a aparência; e, em certa fase, ficava escrachando minha aparência diante do espelho.

Todo mundo considera Clara linda e, sobretudo após recuperar uma foto de quando eu tinha uns sete meses nos braços da minha mãe, muito parecida comigo. Quando postei no Facebook uma foto de Silvia com Clara nos braços, ninguém menos que minha melhor amiga falou como se a beleza desta fosse uma herança exclusivamente materna e, naquela primeira foto, como se os genes da beleza – nem sei se existem – tivessem sido transmitidos diretamente da minha mãe para nossa filha, sem passar por mim!

Ao discutirmos essa questão meses atrás, me surpreendi com Silvia dizendo “se não lhe achasse um gatinho eu não estaria com você” – ela deve ter dito que me acha bonito muitas vezes antes, mas como também falava que não procurava beleza nos homens, tais elogios passaram despercebidos. Há algumas semanas voltamos à questão e ela lembrou que suas filhas também me acham bonito e que crianças não mentem a esse respeito. Se Clara é linda, é porque ambos pais – embora especialmente Silvia – são bonitos.

Comentar

Entrevista para Revista

Abaixo, está a íntegra da entrevista que dei à revista Bem Vindo A.Nó.S, em fevereiro deste ano, exceto as perguntas sobre meus dados pessoais, omitidas por motivos de segurança.

Bem Vindo A.Nó.S. Conte sua trajetória profissional?

Ronaldo. Quando me mobilizei para tentar trabalhar, a ideia inicial era prestar algum serviço como economista junto com um amigo que exerce esta profissão, mas o que acabei fazendo foram cartões de visita, algumas logomarcas e folhas de pagamento, impressos e digitação de textos, em sociedade com uma irmã minha, serviços cuja banalidade e baixa remuneração me desestimulavam bastante.

Leia mais:Entrevista para Revista

Matéria de Revista

Embora boa, esta matéria da revista Bem Vindo A.Nó.S tem dois erros: este blog foi criado em 2014; e o segundo parágrafo mistura acontecimentos separados por mais de quinze anos – fiz o site de uma ONG (já extinta) no fim dos anos 1990.

Comentar

Espirro Proíbido

Hoje, enquanto Silvia fazia o almoço fiquei balançando Clara no carrinho durante 30 ou 40 minutos, tentando que esta dormisse para ver se conseguíamos comer com um pouco de sossego e tomar banho. Devido à coordenação insuficiente da musculatura envolvida na respiração e na deglutição, durante as refeições às vezes entra comida no meu nariz, em geral causando o reflexo de espirrar. Dessa vez, entrou um pedaço de macarrão, fiquei vários minutos inspirando com força para ele voltar à boca e fazendo de tudo para evitar o espirro, para não acordar Clara. Silvia acabou dizendo “coitadinho, não pode nem espirrar!”.

Comentar

Contexto Socioeconômico

É raríssimo alguém com paralisia cerebral severa se casar, ainda mais com uma mulher linda e bem-sucedida, e ter filhos. Além dos méritos e esforços próprios e dos meus pais, tal sucesso deve-se a haver tido os privilégios e recursos da classe média; se tivesse uma condição socioeconômica inferior, provavelmente não teria me alfabetizado por mais inteligente que fosse, seria de fato motoramente paralisado e talvez tivesse morrido das doenças respiratórias acarretadas pela PC. Ainda mais difícil seria desenvolver o hábito da leitura e um alto nível cultural.

Comentar

Meus Maiores Fracassos

Nunca consegui ter uma profissão e, na maior parte da vida, não tive renda, embora esta tenha aparecido e aumentado nos últimos anos. Tive uma casa nos anos 1980, doada por um tio, e uma quantia de valor equivalente em 1998, mas perdi ambas – no primeiro caso, nada havia que eu pudesse fazer, mas no segundo foi incapacidade de dizer “não”. Escrever para este blog é um trabalho remunerado do qual passei a gostar, mas o patrocínio é pequeno, não consigo outros e colocar publicidade nele só o poluiu. Devo perder minha principal fonte de renda no próximo ano. Agora que tenho de participar das despesas de uma casa e de criar uma filha, me ressinto muito desses fracassos.

Comentar

Dificuldade de Expressão

Tenho dificuldade de expressar agressividade, raiva, irritação, aborrecimento e emoções correlatas, por vários motivos: a dependência física e econômica; a impossibilidade de falar, que me obriga a usar formas de comunicação menos espontâneas; a necessidade de controlar a atetóide (movimentos involuntários) e a espasticidade (rigidez muscular), o que faz sempre precisar me controlar emocionalmente para poder me expressar; a prancha alfanumérica que é meu principal meio de comunicação torna complicado fazer uma narrativa ou detalhar muito um assunto, me fazendo ser conciso demais. Quando a calma forçada ou  voluntária da minha comunicação impede os outros de compreenderem como estou me sentindo, os problemas persistem e aquelas emoções se acumulam, às vezes digito um texto-bomba que dá vazão a estas e pega o destinatário de surpresa ou até o assusta, mas é mais frequente isso gerar problemas gástricos.

Comentar

Passeio num Shopping Center

Ontem, fomos a um shopping center para cortar meus cabelos. Logo que entramos, uma vendedora de uma ótica na qual comprei um óculos nos reconheceu e que nos abordou perguntando pelo bebê que, então, estava na barriga de Silvia. Senti vontade de dar o endereço deste blog, mas fiquei na dúvida se essa pessoa não trabalhava noutra ótica onde recebi um atendimento ridículo – após nos despedimos, percebi que não era o caso ao vê-la entrar naquela primeira ótica.

Ao terminar de cortar meus cabelos, sem imaginar que sou casado o cabelereiro me falou “agora você pode paquerar as gatinhas”, mostrei minha aliança, o que o fez dizer “ih! A ‘polícia’ está por perto”, ao ver Silvia voltar ele emendou “a ‘polícia’ chegou” e ficamos rindo a deixando sem entender porquê. Esses papos masculinos me fazem falta.

Em Curitiba, se mantem as crianças acreditando em Papai Noel por muito mais tempo que no Nordeste, o que acho estranho. Após saímos do salão de beleza, Silvia levou suas filhas para tirar foto com o Papai Noel do shopping e queria a todo custo que eu também o fizesse apesar dos meus protestos, mas na hora H deixou isso para uma ocasião em que Clara esteja conosco. Fiquei pensando se há um jeito de escapar desse mico.

Comentar

Dores nas Costas

Tenho um desvio na coluna, o que somado à postura com que me sento me causa dores nas costas. Em Recife, fazia muitas atividades que reduziam e até eliminavam tais dores: tinha uma “bola de Bobath” na qual alongava as costas assim que me acordava de manhã; deitava de bruços algumas vezes ao dia, embora isso haja se tornado meio difícil após começar a ter refluxo; e fazia natação, fisioterapia e equoterapia. Nesse aspecto, em Curitiba a situação tem sido mais difícil: quando procuro uma cama para ficar de bruços, muitas vezes todas estão com uma pilha de coisas em cima; só venho conseguindo ir à natação num mês em cada quatro ou cinco e último foi julho; meu plano de saúde reduziu as sessões de fisioterapia domiciliar de três para duas; e é inviável praticar equoterapia. Assim, desde setembro tais dores aumentaram bastante. Comecei a me obrigar a ter paciência de desocupar minha cama quando quero me deitar de bruços, me apoiar no sofá para alongar as costas e, no verão, talvez possa nadar na piscina do condomínio onde moro, já que esta terá aquecimento. O tempo dirá se essas medidas diminuirão as dores.

Tudo na vida tem um custo – não existe almoço grátis, como dizia Milton Friedman. Essas dores são parte do custo de ter me mudado para Curitiba e constituído uma família.

Comentar

Noites mal dormidas

Silvia e eu mal dormimos na noite deste domingo, por causa de Clara. Em geral, só me deito após ela botar esta no berço, mas estava tão cansado que adormeci logo, enquanto Silvia foi até a uma hora da madrugada com esta. Em seguida, mudei de posição na cama, fiz algum barulho que acordou esta, zangada Silvia disse que ia dormir no sofá e que cuidasse de Clara. Como já havia conseguido uma vez que esta dormisse no berço e para atenuar a situação, comecei a chacoalhar este com a perna, embora me machucasse um pouco, até esta dormir, voltei a me deitar, mas não peguei mais no sono. Em torno de mais uma hora, Clara acordou de novo, Silvia voltou ao quarto, combinamos que eu chacoalharia o berço de novo enquanto ela tentaria dormir, mas estava sem ver o rosto de Clara, parei antes de esta firmar o sono, começou a chorar e passamos outra noite sem dormir direito.

Comentar

Acariciando a Filha

Comentar

Um Padrão no Primeiro Amor?

Tenho cinco filmes com personagem com paralisia cerebral, dos quais o mais famoso é Meu Pé Esquerdo. O primeiro amor de quase todos esses personagens foi sempre pela primeira pessoa da mesma faixa de idade que os tratou como gente, o que também aconteceu comigo. Me pergunto se tais filmes indicam um padrão geral.

Comentar

Exilado do Próprio Quarto

No início de setembro, tive uma gripe com infecção de garganta, a qual continuou ruim porque tenho refluxo estomacal. Meus espirros, fungados e tosse impediam Clara, nossa filha, e portanto Silvia de dormir, a aproximando de uma estafa e a solução foi eu passar a noite ora no quarto de suas filhas nos dias em que estas ficavam com o pai, ora num colchão no chão do escritório. Este é estreito, quando me virava no colchão frequentemente batia com a mão nos móveis, em vários dias me acordava com dores nas costas e até com uma distensão muscular.

A parte de trás do apartamento dos meus pais, em Recife, tem um quarto no qual todos da família detestam dormir e é onde eu o farei se voltar para lá – quero passar o resto da vida com Silvia, mas sei que isso pode não acontecer. Num período em que o ex-marido dela fez um tratamento de saúde, não pôde ficar com suas filhas, tive de dormir continuamente no escritório e percebi que era pior do que naquele quarto. Fiz esse comentário a Silvia, mas de modo tão controlado que ela não se deu conta do quanto minha paciência com aquela situação – e outros problemas – estava chegando ao limite e até pensou que eu estivesse brincando. De qualquer forma, ela também começou a se incomodar com a situação, quando minha garganta ficou boa resolvemos voltar a dormir juntos. Devido a uma rinite alérgica, desvio de septo nasal e outros motivos, à noite minha respiração é ruim e meio barulhenta, com o que Silvia e Clara se desacostumaram e tive de retornar ao escritório algumas noites. Tomei remédios para rinite por três dias e, após quase dois meses, finalmente conseguimos dormir juntos de novo.

Comentar

Botando a Filha no Colo

Até completar três meses de vida, só pegava nossa filha no colo a encostando no meu corpo e a ladeando com meus braços esticados, o que não podia durar muito tempo porque, à medida em que se movimenta mais, haveria a possibilidade virar para frente. Na semana passada, tomei coragem para botá-la no colo a enlaçando com o braço esquerdo, mas ficava com a musculatura deste tensa temendo apertá-la demais ou a machucar, logo sentia fadiga no braço, o que me dava medo de soltá-la embora isso seja quase impossível, e a devolvia para Silvia. Só ontem consegui ficar com ela no colo com o braço relativamente relaxado.

Comentar

Aniversário de Casamento

Hoje, faz um ano que Silvia e eu nos casamos informalmente – apenas colocamos alianças e mudamos o status de relacionamento no Facebook. Foi rápido demais, drástico demais, muitas vezes me pareceu uma loucura e que acabaria num desastre. Desde então, tivemos alegrias, tristezas, dificuldades, momentos maravilhosos, situações de pânico, etc, como todo casal. Agora, tenho certeza que foi a melhor coisa da minha vida, estou casado com uma mulher que me encanta por sua força, beleza, brincadeiras de menina, capacidade de amar, etc.

Comentar

Fan page do Cérebro Pensante/blogcerebropensante

Rosto de RonaldoRonaldo Correia Junior, criou o site Dedos dos Pés, economista de formação, tem paralisia cerebral, eventual praticante de voo livre e paraquedismo.
Perfis em redes sociais:
 Google+ Botão do Twitter
E-mail: ronaldocj@gmail.com