Nunca mais Clara acordou Silvia durante a noite só para cobri-la e outras coisas desnecessárias. Agora ficou nítido que a razão para eu demorar tanto para resolver esse problema, além da minha incapacidade física de intervir intempestivamente, era que, no fundo, Silvia gostava dessa situação de dependência – algo bem comum em mães – apesar de prejudicar a ambas. Na verdade, Silvia já tinha apavorado Clara algumas vezes falando da própria morte, das quais a primeira foi involuntária – estava conversando com a segunda filha sobre o falecimento do ex-marido – e as posteriores, reproduzindo um comportamento da própria mãe, sem um propósito útil. Diferentemente, eu nunca tinha usado esse argumento – até por ser um dos meus próprios pesadelos –, foi um bom motivo, que Clara compreendeu perfeitamente, falei a verdade – a qualidade do sono influi na expectativa de vida – e, pelos comentários bem-humorados que depois fez sobre o episódio, esta não ficou com trauma algum. A maioria dos psicólogos que lerem o último post deve desaprovar o que fiz, mas crianças que às vezes não são confrontadas com seus medos tendem a se tornar adultos frágeis. Quando a suavidade não funciona, é preciso ser radical.

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