Senso Excessivo de Responsabilidade

Criado: Sexta, 19 Outubro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Entre a noite de terça e a manhã de quarta, houve um problema grave aqui em casa – que não vou descrever para preservar nossa privacidade – que implicou um sério risco para Clara, embora na terça eu tenha conseguido isolá-la do perigo. Na quarta, passei a maior parte do dia me sentindo fisicamente mal, talvez porque não tenha encontrado um modo de protege-la, apesar de nada de errado haver ocorrido com esta. Em Recife, também passava por situações familiares extremas, mas o estresse resultante não chegava ao ponto de ser somatizado com tanta frequência quanto acontece aqui e venho me perguntando porquê.

Silvia já disse “você cuida mais de mim do que eu de você”, ”dou mais trabalho a Ronaldo do que ele a mim”, etc – evidentemente essas afirmações não correspondem à realidade e sua única gota de verdade é que não sou só um dependente de Silvia, mas também responsável por ela e suas filhas, embora a responsabilidade que mais pesa seja Clara. Por outro lado, muitas vezes me vejo incapaz de resolver ou atenuar os problemas que surgem, por ter paralisia cerebral e baixa renda. Talvez devesse me isentar um pouco desse contexto, mas minha personalidade vai na direção oposta, de querer abarcar tudo, exigir muito de mim mesmo. Assim, acho que a resposta é ter um excesso de senso de responsabilidade combinado a uma aguda consciência das minhas limitações físicas e financeiras.

0
0
0
s2sdefault

Brincando de Cavalinho

Criado: Quarta, 17 Outubro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Clara teve um problema nos olhos – que pensamos ser conjuntivite, mas o oftalmologista disse que era uma alergia –, passou dois dias sem ir à escola, ontem minha fisioterapeuta mais uma vez a aproveitou como instrumento de trabalho e um dos exercícios foi brincar de cavalinho.

0
0
0
s2sdefault

Preocupação da Filha II

Criado: Quarta, 10 Outubro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Nesta manhã, nos dirigimos à garagem do nosso prédio, Silvia me deixou na cadeira de rodas enquanto colocava Clara no carro, esta pensou que eu ficaria sozinho ali, começou a chorar, aquela a acalmou falando que eu sairia com ambas e Clara disse “Naldo, senta aqui (no carro)”. Silvia foi no carro comentando que não sabia se essa preocupação de Clara comigo – que começou já no seu terceiro semestre de vida – é boa ou ruim e concluiu que não deverá ser um peso, pelo meu bom humor e riso fácil – esta já adquiriu a segunda característica. Desde a gravidez, eu não queria que tal preocupação existisse, ainda mais tão cedo, mas não sei como evitar, pois Clara percebe perfeitamente minha vulnerabilidade.

0
0
0
s2sdefault

Exposição Escolar

Criado: Sábado, 22 Setembro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Nesta manhã, haveria uma exposição na escola de Clara com trabalhos de alunos e professores sobre alguns países. Pela pouca importância que ela me dá – que às vezes imagino ser quase inexistente – e o esforço que Silvia faria para me aprontar e conduzir a cadeira de rodas, cogitei não ir achando que Clara seria indiferente à minha presença ou ausência – acabei indo. Esperamos um pouco no pátio com ela no meu colo, em seguida entrou com uma professora e, quando me viu entrando na sala de sua turma, Clara ficou tão surpresa e alegre que quis voltar para meu colo – minha alegria com tal reação foi maior que a dela.

0
0
0
s2sdefault

Troca de Tarefas

Criado: Terça, 18 Setembro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Clara ter deixado de dormir comigo complicou bastante nossas noites e fiquei pensando em como minimizar isso. As filhas de Silvia vinham fazendo muito tumulto na hora de dormir, levando Clara a demorar para adormecer, e um dia decidi ficar no quarto das duas para que se aquietassem logo – minha intenção era efetuar uma intervenção pontual, mas se tornou permanente. Ambas sempre gostaram que eu as botasse para dormir, porém, dessa vez, enquanto a mais nova adorou meu retorno ao seu quarto e está adormecendo em poucos minutos, a mais velha o repudiou – Silvia acha que o motivo é implicância com ela e a irmã, mas não tenho certeza de que o problema não é (ou era) mesmo comigo, embora não se manifeste em nenhum outro momento; de qualquer forma, esse repúdio parece ter sumido nos últimos dias.

Essa troca de tarefas reduziu os danos de Clara passar a dormir com Silvia, mas não os eliminou e um destes é aquela se distanciar de mim, para minha tristeza.

0
0
0
s2sdefault

Voltando a Sair com a Filha

Criado: Domingo, 09 Setembro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

De um ano e meio a três anos é a “idade da birra” dos bebês e, após nos metermos em várias situações complicadas, passamos uns seis meses evitando sair com Clara, o que só começou a mudar há dez dias. Ontem, fomos a um shopping center cujo piso superior tem uma área ao ar livre para soltá-la lá. Já que o objetivo era este, comecei a me afastar conduzindo a cadeira de rodas com meus pés, mas Clara sempre falava "volta papai, volta papai" e às vezes ia até onde eu estava para me levar para perto – tendo a me sentir sem importância para ela e episódios como este mostram que não é bem assim. E sua beleza ainda é suficiente para fazer algumas pessoas chegarem a nos dizer que ela é linda, para orgulho do pailaughing

0
0
0
s2sdefault

Implicância da Filha

Criado: Quarta, 05 Setembro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

O furo na meia é para me permitir usar o tablet com o dedão do pé.

0
0
0
s2sdefault

Show dos Tribalistas

Criado: Sábado, 01 Setembro 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Gosto demais dos Tribalistas e, ao saber que dariam um show em Curitiba no fim de agosto, na Pedreira Paulo Leminski – que eu ainda não conhecia –, compramos os ingressos há quatro meses. Duas semanas antes do evento, tive uma infecção de garganta que fez Silvia começar a relutar em ir, preocupada com minha saúde, ainda mais após Clara também adoecer. Fazia uns vinte anos que Silvia não ia lá e pensava que a acessibilidade ainda era péssima – na verdade, a Pedreira se preparou bem para receber pessoas com deficiência e, em particular, a plataforma reservada a estas é o melhor local para ver um show, desde que não chova, outra preocupação nossa. No dia do evento, o boleto do plano de saúde de Silvia pareceu indicar que um familiar seu tinha ficado sem cobertura, o que a deixou desesperada e levou dois dias para saber que não. Por tudo isso, só fomos ao show porque insisti bastante, até contra minha própria relutância, pois além de querer muito vê-lo, havia um mês que não saia de casa – situação frequente para quem tem paralisia cerebral – e detesto jogar dinheiro fora. Valeu a pena, foi um dos shows que mais curti, embora teria sido melhor se Silvia estivesse bem.

0
0
0
s2sdefault

Foto

Criado: Sábado, 25 Agosto 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

0
0
0
s2sdefault

Atitudes com a Paternidade

Criado: Segunda, 20 Agosto 2018 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Na década de 1980, havia três crianças pequenas na minha família, uma experiência tão difícil que decidi que nunca, jamais teria filhos – minha paralisia cerebral era um reforço a tal decisão, não o motivo principal. Na época, parecia que o mais provável era não ter qualquer relacionamento com mulheres e demorou muitos anos para a questão deixar de ser abstrata.

O melhor exemplo daquele horror à paternidade ocorreu em 2004, ao me encontrar com uma namorada loira e linda, bem o biotipo mais valorizado no Ocidente. Ao saber que eu não transava sem preservativo, ela quis que fizéssemos isso. Em vez de cair num oba-oba fiquei alarmado com a possibilidade de engravidá-la, em todos os dias que passamos juntos ela se esqueceu de tomar o anticoncepcional e todos os dias o lembrei, peguei no seu pé. Depois, a repreendi por esse esquecimento sistemático e ela respondeu que não podia engravidar por ter endometriose, argumento que não me convenceu – de fato, após seis anos ela teve uma filha sem fazer tratamento algum (pensei que havia escapado...). E o motivo mais imediato que ela deu para acabar o namoro comigo foi minha recusa a ter filhos.

Outro exemplo é que, quando Silvia e eu começamos a namorar, confiamos que os problemas do seu útero – entre outros, também endometriose – impediriam uma gravidez, após nosso segundo encontro pensou que poderia estar grávida, tirou onda – talvez já após o teste dá negativo –, mas não achei a menor graça, dei uma bronca nela e decidimos que Silvia passaria a usar anticoncepcional – evidentemente nada disso certo.

No dia em que soubemos que tínhamos gerado Clara, meu pânico foi total, não consegui dormir um minuto e, nas duas semanas seguintes, fiquei à beira da depressão a ponto de Silvia se preocupar em sair comigo para ver se eu reagia. Também fiquei apavorado em seu primeiro mês de vida.

Com o tempo, comecei a me derreter só por ouvir Clara me chamar de “papai”, Silvia passou a fazer afirmações como “nunca vi um pai tão apaixonado pela filha”, etc. Essa mudança não foi instantânea, automática, demorou um semestre e, no fim desse período, nosso casamento chegou a ficar estremecido. Já escrevi sobre os fatores básicos dessa mudança noutro post, mas o que foi dito ali não explica muito meu processo de transformação interna, que não consigo detalhar – e, se conseguisse, talvez não quisesse expô-lo a público. O certo é que considero Clara a melhor coisa que me aconteceu.

0
0
0
s2sdefault

Mais Artigos...