Vida Inteligente na Terra

Criado: Segunda, 29 Fevereiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

No sábado à noite, Silvia e eu fomos ao show do RPM no Teatro Positivo. Em contraste com o que houve à tarde, um funcionário se aproximou do carro, ajudou a tirar minha cadeira de rodas do bagageiro e me tratou de amigão; após nos sentarmos nas poltronas, a mulher à esquerda perguntou se somos casados. Há vida inteligente neste planeta quanto a pessoas com paralisia cerebral!

 

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Criança de 51 Anos

Criado: Domingo, 28 Fevereiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Ontem à tarde, Silvia e eu fomos ao shopping center para fazer um ajuste no meu óculos, um funcionário responsável pelas cadeiras de rodas, muito solicito, levou uma até o carro, após me sentar falou “bote o pezinho aqui (no pedal)” e me chamou de garoto, o que me deu vontade de dizer “tenho 51 anos, essa gata é minha esposa e ela está grávida de mim”!

Na ótica, fiquei atazanando Silvia para me dar minha prancha de comunicação a fim de deixar o endereço deste blog com as vendedoras (veja o porquê aqui) e, inquieta, ela se negou – eu estava brincando, mas não era impossível que resolvesse mesmo deixar o endereço. Sacanagem, Silvia cortou meu barato!

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Espírito de Porco

Criado: Sexta, 26 Fevereiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Há três dias, fui buscar meu óculos na ótica mencionada no último post e, para inquietação de Silvia, tive vontade de deixar o endereço deste blog, para a vendedora saber como foi idiota comigo. Silvia me deu o controle de sua conta bancária quando cheguei a Curitiba, nesta terça me pediu para transferir um valor para uma pessoa que não quer saber de mim e, já que ia dar uma quantia para ajudar nas despesas da casa, pensei em fazer a transferência diretamente da minha conta, para ver o circo pegar fogo. Sou conciliador, mas para mantê-lo às vezes preciso me controlar para não agir como um espírito de porco, altamente provocativo. Quanta diferença para os anjinhos que muita gente pensa que são as pessoas com paralisia cerebral!

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Palpites Furados

Criado: Sexta, 19 Fevereiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Ontem, fui com Silvia a uma ótica comprar novas lentes para meu óculos. Quando esta disse que o uso só para leitura, a vendedora falou espantada “ah, ele lê, é?!” e pensei “eita, ela acha que sou analfabeto”. Fiz cara feia ao saber do primeiro orçamento, Silvia explicou que o pagamento seria no meu cartão de crédito, novamente a vendedora se espantou porque tenho um (na verdade, vários), na hora de fazer meu cadastro ela perguntou ‘ele tem CPF?” e me perguntei “como ela acha que eu posso ter feito um cartão sem CPF? Acha que não tenho cidadania?”. No caixa, a vendedora perguntou a Silvia “ele é seu irmão?” – só uma ou duas pessoas em cem imaginam que somos casados –, esta respondeu que sou seu marido e que está grávida, o que aumentou o espanto dela e ainda perguntou se será um menino – é uma menina! A vendedora não acertou uma!

Esta é uma situação típica do nosso cotidiano e bem reveladora de como a sociedade vê quem tem paralisia cerebral, embora não expresse meu sarcasmo por questão de educação e o máximo que faço é rir.

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Origem e Propósito do Blog

Criado: Quarta, 17 Fevereiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Em 1998 fiz amizade com um empresário carioca que viu meu site, cujo pai (já falecido) tinha paralisia cerebral e, num momento muito difícil, ele passou a me ajudar financeiramente, o que via como um prolongamento de seu amor por este, embora nunca tenhamos nos encontrado pessoalmente. Há dois anos, ele não pôde mais me ajudar informalmente e decidiu criar um blog patrocinado sobre PC. Era para ser um coletivo, cujo conteúdo seria produzido não só por gente com PC, mas também por pais, médicos, fisioterapeutas, etc, desde que os textos fossem sempre em primeira pessoa, que ele próprio iria arranjar, enquanto eu apenas ficaria com a administração e só escreveria eventualmente. Na época, tinha parado de escrever há muito tempo, me sentia totalmente sem inspiração para tanto e fiz tudo para me esquivar de produzir o conteúdo. Porém, esse amigo nunca teve tempo para conseguir colaboradores e, muito a contragosto, acabei como o único responsável pelo blog.

A inspiração acabou surgindo do meu cotidiano e, nos últimos meses, da mulher que amo. A intenção é mostrar uma pessoa com PC como alguém de carne e osso, com dúvidas, problemas, vitórias, conquistas, desejos, frustrações, etc, inclusive abordando aspectos polêmicos e obscuros. O nome do blog é uma alusão à ideia de que pessoas com PC são incapazes de pensar. Evito ao máximo postar conteúdo de terceiros. Me nego terminantemente a fazer o discurso da “superação” e a encarnar o papel de herói, super-homem, lição de vida e outros correlatos.

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Imagens de um Casal Grávido

Criado: Domingo, 14 Fevereiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Pode haver sensualidade num casal constituído de uma grávida de cinco meses e um homem com paralisia cerebral?
A tradução da frase da camiseta com a qual eu estava é "estar inspirado é ótimo, inspirar é incrível".

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(In)Acessibilidade dos Motéis de Curitiba

Criado: Sexta, 12 Fevereiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

A boa acessibilidade de Curitiba não chega aos seus motéis. Silvia e eu já fomos ao Acqua e ao Você Que Sabe. As suítes não têm adaptação alguma para pessoas com deficiência, embora isso não tenha nos atrapalhado porque, como faço em casa, me locomovi engatinhando, subi e desci da cama sozinho, e quando precisei tomar banho e ir ao banheiro, Silvia o fez sem grande dificuldade. O problema foram as escadas estreitas, íngremes e com corrimão só de um lado que ligam as garagens às suítes – subi-las até não foi muito difícil, mas descê-las foi perigoso demais e tive de me esforçar para manter a calma para não acentuar a espasticidade (rigidez muscular). Parece que essa falta de acessibilidade não é exclusiva desses dois, pois nesta lista de motéis adaptados nenhum é de Curitiba.

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Segundo Treino

Criado: Quinta, 11 Fevereiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

 

Contínuo achando que isso não vai dar certo, vou é machucar nossa filha, mas Silvia insiste que tenho de pega-la logo após o nascimento.

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Riscos e Preocupações

Criado: Quarta, 10 Fevereiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Ter pensado no que poderia dar errado na época do parto de Silvia trouxe à tona preocupações antigas, anteriores à minha mudança para Curitiba, e novas. Uma das razões para ter ficado assustado ao decidir vir para cá é que Silvia teria de cuidar de três dependentes, aos quais se juntará uma recém-nascida em junho. Meu plano de saúde tem alguma assistência médica domiciliar – mas se tiver de me hospitalizar, quem ficará comigo no hospital e/ou com as meninas? Se uma destas adoecer, quem cuidará das outras? E, mais grave de tudo, se a própria Silvia tiver algo sério, como nós quatro vamos nos haver? Por enquanto, não sabemos.

Alguns posts deste blog têm feito muita gente nos oferecer ajuda e atenuado tais preocupações, mas enfrentamos o desafio de saber como lidar com esses riscos e minimiza-los.

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A Incômoda Sexualidade de um Filho com Paralisia Cerebral

Criado: Segunda, 08 Fevereiro 2016 Escrito por Ronaldo Correia Junior

É bem comum mães de pessoas com paralisia cerebral – e outras deficiências –, especialmente as religiosas, pensarem que a finalidade da deficiência seja manter o filho puro, virgem, angelical, assexuado. Quando ainda era católica, às vezes a minha desejava que eu fosse padre – quem me conhece o mínimo pode rir dessa ideia. Após se tornar espírita, passou a argumentar que a espiritualidade tinha dado a PC para me vetar o sexo.

Em meados da década de 1980, fiz o meu primeiro amigo e logo pensamos em este me levar a prostíbulos. Isso tornou muito tenso o relacionamento com minha mãe, que chegou a ameaçar me trancar em casa e eu, retaliar com uma greve de fome. Ela foi se aconselhar com um médium do seu centro espírita, que falou que eu deveria esperar que uma mulher transasse comigo por amor, conselho que considerei idiota, pois minha princesa encantada poderia muito bem nunca aparecer, além de depender da suposição heroica de minhas virgindade e inexperiência sexual não atrapalharem de várias formas a relação com tal mulher. Ela só aceitou que eu transasse doze anos depois, quando em ejaculações involuntárias noturnas meu semem saiu com sangue – a primeira coisa em que pensamos foi câncer de próstata, mas o diagnóstico foi escamação da vesícula seminal por acúmulo de líquido, isto é, falta de sexo.

A ideia de ir a prostíbulos com meu amigo também incomodou muito meu pai, que imaginava que se eu não experimentasse sexo nunca iria querer faze-lo – o mero fato de eu ter tido aquela ideia já demonstra que ele estava enganado. Outro motivo desse incômodo era que ele se sentia no dever de fazer minha iniciação sexual, mas, por algum motivo que desconheço, ficou com aversão a prostíbulos e/ou lidar com prostitutas. Porém, sempre rejeitei ir a tais lugares com ele e tudo que eu queria era que infundisse algum bom senso e flexibilidade na minha mãe.

Hoje, tudo que passei na década de 1980 é muito irônico e até me faz rir, pois, ao menos por enquanto, sou o filho mais “bem casado” e darei uma neta a eles – o que minha mãe me cobrava desde 2004, quando tive outra namorada linda – e, sem a experiência que acumulei muito mais com prostitutas do que com outras mulheres, é bem possível que meu relacionamento com Silvia fracassasse.

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