A Dialética entre a Mulher Maravilha e o Super Homem

Criado: Quarta, 02 Março 2022 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Antes de se casar comigo, Silvia queria adotar uma criança achando que assim diminuiria o sofrimento que há no mundo, o tornaria melhor, o que visivelmente é um elemento de seu Complexo de Mulher Maravilha. Às vezes penso que querer um homem com paralisia cerebral severa seja outro desses elementos. Não posso afirmar isso porque ela estava tão mal, nos anos anteriores ao nosso casamento, que após um tempo de estarmos juntos concluiu que teria um infarto, AVC ou algo parecido se não tivesse me encontrado e que salvei sua vida – como a iniciativa do nosso relacionamento foi toda dela, acho essa ideia sem nexo, mas não consigo muda-la. Assim, não sei se ter casado comigo é parte daquele complexo, mas sua atração por mim – que começou em 2000, quando estava bem – provavelmente é.

Meses atrás, assistimos um vídeo que distingue o herói cristão ocidental – que luta, sacrifica-se por uma causa maior – do greco-romano, o qual ver o mundo como meio caótico, sem muito sentido, cheio de coisas terríveis, mas consegue encará-lo, viver com isso, e nos identificamos com esse segundo tipo. De vez em quando alguém me considera o Super Homem, o que sempre rejeitei – e Silvia insiste que sou. De fato, sentir-se atraída por homens fisicamente frágeis – especialmente se a fragilidade for uma deficiência – e que tenham humor, sejam capazes de rir, brincar é como desejar o próprio. Afinal o companheiro mais adequado para a Mulher Maravilha é o Super Homemwink

Mas, no fim das contas, Silvia desejava salvar um homem frágil e o mundo, ou procurava um Super Homem? Acho que ambas as coisas simultaneamente – essa dialética talvez valesse para outras mulheres que tive –, pois o ser humano é mesmo contraditório: outra característica do herói greco-romano é aspirar ser lembrado, notado, o que é um dos motivos para a existência deste blog mas, sempre que isso ocorre, fico querendo um buraco para me enfiar!