Fragmentos do Contidiano

Criado: Segunda, 21 Setembro 2020 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Desde o último episódio de ciúme de mim, Clara geralmente passa as tardes comigo, às vezes me pedindo carinho e até para botá-la para dormir – em parte, tal comportamento deve-se a ela já ter consciência de que precisa deixar Silvia trabalhar. Curiosamente, de manhã ela fica meio refratária a mim.

Vinha tendo dores nas costas pela falta da fisioterapia devido à pandemia de COVID-19 e, apesar disso, dizendo “não” quando a profissional que me atende perguntava se queria retomá-la. Acontece que o primeiro marido de Silvia morreu dessa doença, o que provocou várias tensões aqui em casa que, por sua vez, causaram uma distensão muscular na junção do meu pescoço com o ombro esquerdo que às vezes se espraia para toda a musculatura que envolve a escápula. Tomei relaxante muscular várias vezes, não resolveu, acabei retornando à fisioterapia, que diminuiu a dor, mas esta contínua porque ainda não consegui faze-la com regularidade.

No início do isolamento social, quando dispensamos nossa empregada, passei a arrumar a cama após me acordar – às vezes já fazia isso em Recife, mas lá era só botar no guarda-roupa o lençol com que me cobria, enquanto aqui em Curitiba tenho que puxar as cobertas dos lados, circulando ao redor da cama, engatinhando ou de joelhos, num quarto apertado. Há duas semanas, Silvia chegou ao quarto no momento em que eu desempenhava tal tarefa, disse “mas é mesmo o homem ideal” e me fez uma série de elogios. Fiquei surpreso e só depois atinei que poucos homens fazem o mesmo, sobretudo se puderem usar uma deficiência como desculpa. Mas foi Silvia que terminou de arrumar a cama, devido a um corolário de seu complexo de Mulher Maravilha – uma grande dificuldade de permitir que outra pessoa faça algo em seu lugar: em algumas ocasiões, vou apagar uma luz e ela se antecipa (nesse caso, também para me provocar).

Sou quem faz o grosso das compras de supermercado (pela Internet), com Silvia indo a esse tipo de estabelecimento só para compras menores. No início da pandemia, justamente quando tal esquema era mais necessário, ela resolveu assumir todas as compras desse tipo, alegando que as novas regras do condomínio dificultavam a entrega – não fui convencido, mas não havia muito que eu pudesse fazer. Tais regras mudaram de novo há duas semanas, reassumi essas compras e Silvia achou ótimo dispor de mais tempo – lidar com a Mulher Maravilha pode ser tortuosowink

Ultimamente tem acontecido de Silvia dar minha comida enquanto cuido para Clara comer com a própria mão. Ensinar independência numa situação de dependência é paradoxal.

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