Carta para fisioterapeutas

Criado: Quinta, 21 Agosto 2014 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Quando deixam de poder me atender, a maioria das fisioterapeutas procura falar diretamente com a que vai substitui-las para informa-la sobre o trabalho que desenvolveu, mas algumas não têm essa preocupação. Para a nova profissional não começar a trabalhar comigo às cegas, ensina-la como me comunico e dar outras informações, imprimo e entrego a carta abaixo:

"Minha paralisia cerebral é mista – tenho espasticidade, ataxia e atetóide, sendo esta concentrada no braço direito. Portanto, os exercícios devem ser em cadeia cinética fechada, exceto quando você quiser fazer algum para atetóise. Meu joelho esquerdo é virado para dentro, minhas pernas não se estendem completamente, o ombro direito é bem anteriorizado e meus pés ficam para fora quando fico em pé. O que me levou a voltar a fazer fisioterapia foi o aumento da espasticidade devido ao avanço da idade e dores e eventuais distensões nas costas, ombro direito e lado direito do pescoço, causadas por um desvio de coluna e pela posição na qual uso o computador.

Minhas pernas já subem 70 ou 80 graus.ao alongar a parte posterior. Para alongar bem a parte posterior da perna esquerda você precisa forçar o joelho para fora, senão a força vai para o lado interno deste. Será necessário que lhe dê algum feedback sobre o alongamento das pernas, porque acertar isso não é trivial. O que mais alivia minha coluna é o alongamento de costas na bola. Á melhor forma de me segurar para andar comigo e fazer exercícios em pé é me segurar por baixo dos braços, com suas mãos próximas aos meus cotovelos, de frente para mim – creio que esse forma é ensinada a todos os fisioterapeutas (não é assim que ando  no cotidiano, mas essa outra forma é viciada).

Para conversar pessoalmente, uso uma prancha com letras e números que você verá amanhã. No fim de cada palavra que formo na prancha com a qual me comunico dou uma pausa, na qual você deve repeti-la em voz alta ou, se for inconveniente que outros ouçam, fazer algum gesto, para que eu saiba que entendeu a palavra ou não. Se você perceber a palavra que estou formando antes de terminá-la, deve falar no mesmo instante para agilizar a conversa. Meu tablet está dando problema e pode ser bom me adicionar no Facebook, onde estou como Ronaldo Correia Junior, para a eventualidade de eu ficar sem o WhatsApp. Tenho um site – www.dedosdospes.com.br – e um blog – www.cerebropensante.com.br – que creio que você achará interessante ler."

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Primeiro Salto de Paraquedas

Criado: Domingo, 17 Agosto 2014 Escrito por Ronaldo Correia Junior

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Resquício de Preconceito

Criado: Domingo, 03 Agosto 2014 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Nesse artigo, Fabiano Puhlmann diz que as pessoas com paralisia cerebral “frequentemente são superdotados na inteligência”. Desconsiderando os casos em que a lesão afeta as partes do cérebro responsáveis pela cognição, não há motivo para supor que a distribuição de Q. I. ou qualquer outra medida de inteligência – todas sujeitas a controvérsias – entre tais pessoas difira do resto da população. Assim, dizer que há uma maior incidência de superdotados entre elas decorre da surpresa de sua “normalidade” nesse aspecto quando se espera que todas, ou na grande maioria, tenham déficit cognitivo. É um resquício de preconceito muito comum – estou cansado de ouvir que sou superdotado ou gênio (não sou) e usei o artigo de Puhlmann apenas como um exemplo que estava disponível.

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Artigo sobre Sexualidade

Criado: Domingo, 27 Julho 2014 Escrito por Ronaldo Correia Junior

O que mais me incomoda nesse artigo de Fabiano Puhlmann sobre sexualidade na paralisia cerebral é chamar a prostituição de "sexualidade marginal". Todos os psicólogos que falam sobre sexualidade procuram ter uma atitude neutra, evitando condenar qualquer prática disseminada, deixando cada pessoa livre para fazer suas escolhas conforme seus desejos e valores. Em contraste, num grupo do Facebook vi a também psicóloga Carolina Câmara, que tem paralisia cerebral, notar a falta de garotos de programa especializados em atender mulheres com deficiência física.

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Retorno à Fisioterapia

Criado: Sábado, 26 Julho 2014 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Não fazia fisioterapia desde a adolescência, quando a detestava ou no mínimo achava enfadonha. Há muito tempo, tinha consciência que nunca devia ter parado, mas o problema do deslocamento, entre outros, me impedia de voltar a fazer, até que soube que meu plano de saúde cobria o atendimento domiciliar. A empresa que fornece o serviço só contrata recém-formados – quase sempre do sexo feminino – que, em média, só passam um ano nessa área por causa do trânsito ruim e da baixa remuneração, o que compromete a qualidade do serviço, embora também me faça conviver com mulheres jovens e bonitas. Apesar da neuroplasticidade, pela minha idade só esperava impedir a deterioração do meu estado físico, mas há um mês vi um claro sinal que a fisioterapia está me trazendo melhoras – pela primeira vez na vida, consegui matar uma barata!!!

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Bilhete para um urologista

Criado: Sábado, 12 Julho 2014 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Sempre que vou a um médico, para agilizar a consulta digito um bilhete descrevendo os sintomas que apresento, o qual implicitamente mostra que não tenho déficit cognitivo. Há quase três meses, fiz uma consulta apenas preventiva com um urologista, à qual não levei tal bilhete porque nada estava sentindo. Os exames que fiz previamente mostraram um aumento da próstata, sem me fazer qualquer pergunta sobre se eu estava com dificuldade para urinar – ao contrário do que os urologistas costumam fazer – ele foi logo abrindo os exames e receitando um remédio para “prevenir” esse tipo de dificuldade, sem dar um piu sobre os efeitos colaterais. Quando li a bula, soube que o remédio pode causar perda de desejo e impotência, embora temporariamente, e não vi nexo algum em correr esse risco por causa de problemas que não tenho.

Assustado, levando um bilhete fui a um segundo urologista, que me disse que 80% ou mais dos homens com aumento da próstata não desenvolvem dificuldade para urinar, que 50% dos que tomam têm os referidos efeitos colaterais e que não receitaria esse remédio só por prevenção – no fim da consulta, impressionado com a clareza do bilhete esse urologista disse que ganhou o dia. A hipótese mais condescendente que consigo imaginar para o primeiro tê-lo receitado é imaginar que não tenho vida sexual e, portanto, impotência e perda de desejo não me afetariam. Quase que a imagem das pessoas com paralisia cerebral como assexuadas vira uma profecia auto realizada!

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Segundo Salto de Paraquedas

Criado: Quinta, 10 Julho 2014 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Foi a quarta tentativa de dar esse salto. Na primeira já estava voando quando o controle de tráfego aéreo informou que a documentação do avião estava irregular e tivemos que pousar – foi inacreditável! Ao marcar o salto em pleno inverno, não acreditava que a chuva o permitiria – foi um tiro na Lua! De última hora o carro do meu irmão deu defeito e tive de gastar um dinheirão para ir e voltar de táxi, mas valeu a pena. No primeiro salto, o medo fez fechar os olhos na queda livre e, quando o paraquedas abriu, bati com a cabeça na boca do instrutor; dessa vez, fiquei de olhos bem abertos durante a queda livre, estava tão consciente nesta que me preocupei que estivesse demorando demais e o instrutor elogiou meu comportamento no salto.

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Comunicação com os pés

Criado: Domingo, 09 Março 2014 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Já que não posso falar, além de usar gestos, expressões faciais e uns poucos sons que consigo pronunciar, é assim que me comunico:

 

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Bebendo

Criado: Sábado, 08 Março 2014 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Às vezes há modos simples e diretos de ver o preconceito e/ou a desinformação sobre quem tem paralisia cerebral: num bar, quando o garçom serve a cerveja, se ele enche meu copo ou não, ou se alguém se espanta que eu bebo – e já aconteceu duas vezes de pessoas da mesa vizinha quererem chamar a polícia ou agredir quem estava comigo, só porque estava me dando bebida.

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Desconforto com a família

Criado: Sábado, 08 Março 2014 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Há alguns anos atrás, uma psicóloga com paralisia cerebral chamou várias pessoas, inclusive eu, para formar um grupo de discussão só de adultos com PC, perguntei a essas pessoas quem poderia participar e, por unanimidade, se excluiu os pais. Aí perguntei quanto aos irmãos, fui voto vencido e estes também foram excluídos. O grupo não foi para frente, mas fiquei impressionado com o desconforto de adultos com PC quanto aos familiares, em especial os pais, devido à infantilização, superproteção e outros motivos. Em 2012, duas outras psicólogas com paralisia cerebral criaram um grupo assim no Facebook.

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