Cadeira de Rodas

Criado: Domingo, 08 Outubro 2017 Escrito por Ronaldo Correia Junior

Das limitações físicas que tenho, a que menos era aceita por minha mãe era não andar e precisar me locomover em casa engatinhando, me ”arrastando pelo chão como um animal” na sua expressão. Ela fez de tudo para eliminar tal limitações e chegou muito mais perto de consegui-lo do que se pode inferir dos meus atuais vídeos: diariamente, ela me levava para treinar andar no pátio do prédio onde morávamos em Recife e cheguei a puder andar uns 20m solto, sem ajuda, até que levei uma queda em que bati a cabeça no chão, tive convulsão (não relacionada à PC) e ela parou esse treinamento. Depois foi decidido – não lembro por quem nem em quanto tempo – comprar uma cadeira de rodas para mim e minha mãe ficou desolada, pois significava que seu maior desejo para o filho nunca seria realizado. Mas quase não usava as cadeiras que tive em Recife, pela escassa acessibilidade da cidade – que, embora lentamente, vem aumentando –, e acabavam enferrujando e se estragando, exceto a última. Ainda assim, aquela primeira cadeira me permitiu brincar o carnaval de 1988, uma das melhores e mais loucas experiências da minha vida.

A cadeira de rodas realmente passou a fazer parte do meu cotidiano só após vir morar em Curitiba e, então, voltei a ter o prazer de andar pelas ruas – o melhor modo de se conhecer uma cidade – com relativa liberdade e sem fazer um esforço extremamente cansativo para mim e quem anda comigo – a deambulação de alguém com PC consume energia demais, inclusive por forçar muito o sistema cardiorrespiratório. Quando vem nos visitar e me fotografa com Silvia e/ou Clara, minha melhor amiga sempre me fala para editar as fotos de forma a cortar a cadeira porque acha feio, mas sempre as publico com esta com certo orgulho pois, além de não ver problema estético algum, penso que não é muito incomum se ter uma esposa e uma filha lindas, exceto quando se tem uma deficiência e a cadeira de rodas simboliza isso.

Repetindo um truísmo entre as pessoas com deficiência mais reflexivas, a cadeira de rodas nos é algo positivo, não é uma prisão e sim um instrumento de liberdade.

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